A imaginação e a pintura

Por Marcelo Albuquerque

 

Ao ler o livro A Imaginação Educada, de Northrop Frye, pude ter uma visão ampla daquilo que já vinha pensando sobre minha obra artística, comentada em momentos diversos e esparsos, e consigo aqui deixar um panorama em paralelo com o desenvolvimento do texto do autor. Como artista e professor de história da arte e arquitetura, é certo que a influência da história e da tradição são parte da minha obra e do meu pensamento. Frye nos pergunta, logo de início, que diferença faz o estudo da literatura em nosso comportamento social, politico ou religioso? Nesse caso, para este texto, é perfeitamente possível pensar a literatura como o estudo erudito das artes em geral. E este texto também trata das pinturas de paisagem imaginárias e sua relação com a formação artística. É preciso entender que a arte pode não ter uma função útil e prática, e geralmente não tem, e que vem do ímpeto criador de um artista contemporâneo. Ninguém o solicitou que criasse, ele simplesmente faz, pela força do espírito. Devido a arte não ser necessariamente prática, ela oferece resistência de entendimento a uma grande parcela da sociedade. A arte participa de um mundo que se quer construir e cultivar, não necessariamente o mundo que se vê. Segundo Frye, a medida em que cultivamos um jardim elaboramos o conceito de “erva daninha”, uma planta que não queremos por ali. Nossa educação funciona de forma semelhante; faremos seleções ao longo de nossa vida com o intuito de evoluirmos, mas isso nos custa esforços materiais e muita disposição, e isso se chama liberdade.

 

As paisagens imaginárias são imagens da experiência humana, potencialmente possíveis. A ciência trabalha sobre os fatos e leis naturais, mas necessita da imaginação para avançar para modelos potencialmente possíveis. Já a arte costuma se iniciar na imaginação para dai participar da realidade física. Dessa forma, as paisagens imaginárias são modelos possíveis, como vemos em Lorrain ou Poussin, e se tornam modelos artísticos e clássicos. Não se cobra uma evolução da arte como se cobra da ciência, pois as experiências passadas da arte continuarão como modelos insuperáveis para o futuro. O Parthenon não precisa evoluir, ele é. Um exemplo pode ser visto nos princípios conceituais dos jardins e cidades eternas paradisíacas apresentadas pelas religiões, debatidas dentro da filosofia da paisagem, e os cuidados necessários para se preservar a frágil composição dos jardins terrenos. Por si só, já é um tema para ser apresentado em um outro momento.

 

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Sacromonte. Óleo sobre tela, 100 x 100 cm, 2017.

 

Posso rastrear uma linhagem das minhas paisagens imaginárias ao perceber nelas as influências de outros artistas que admirei e que admiro, como Guignard, Portinari, Di Cavalcanti, Friedrich, Lorrain ou Poussin, entre outros. Concordo que o jovem estudante deve imitar, através dos estudos, aquilo que está consumado como um modelo clássico, mesmo que seja transgressor no futuro. Por isso a história é uma disciplina importante, seguida da crítica e filosofia, assim como Shakespeare ou Machado de Assis encorpam e modelam o jovem escritor ou estudioso da literatura. Os fundamentos clássicos se sustentam nos dias de hoje não por falta de imaginação das novas gerações, mas por serem modelos estéticos consolidados que fundamentam as novas gerações nas esferas eruditas e populares. Como demonstrou Frye em relação à literatura canadense, considero inútil a manutenção de uma brasilidade artificial, com esses aspectos folclóricos forçados e estereotipados, sem que a presença das tradições, oriundas de diversas partes, especialmente as clássicas, se façam presentes. Isso me leva à compreensão da identidade, à compreensão do que gostamos e do que queremos nos distanciar. Não pretendo sucumbir sob a influencia da cultura de massas, por isso essa educação é fundamental.

 

Através da observação e pesquisa, as paisagens imaginárias almejam uma compreensão dos conflitos humanos através dos conceitos de paisagem, da paisagem que a mim é familiar. Deve ser assim pois é nela que exerço minhas experiências, e não em outros países. Porém, as experiências dos clássicos nos apresentam as experiencias passadas nesses outros territórios aos quais não tive e provavelmente não terei experiencias físicas e concretas. As figuras de linguagem e símbolos ultrapassam as fronteiras físicas e temporais, e negligenciá-las é um equívoco. Frye nos recorda que Aristóteles diz que o poeta não tem a função de nos informar o que aconteceu, mas o que acontece; não aquilo o que se deu, mas aquilo que sempre se dá, o universal. O Aquiles histórico pode não ter existido, mas seu mito reflete uma parte de nossas próprias vidas. Por isso, quando recorto uma montanha que não existe na realidade, é para que ela se torne um símbolo. A arte não pode ser fiel à vida, mas sim à própria arte e suas linguagens.

 

2018 - Arquitetura - guache 66 x 47 cm

Arquitetura. Guache sobre papel, 66 x 47 cm, 2018.

 

Apresentar a realidade não basta e se torna monótona. A fotografia geralmente ocupa melhor essa posição. Apresentar e representar uma cidade real não basta. Portanto, as formas inusitadas e retóricas são importantes, como poesia, e a imaginação converte em símbolos universais aquilo que detectamos na realidade. Porém, sabemos que não podemos apontar com frequência certas práticas do cotidiano, principalmente as viciosas e corruptas, sabendo que podem nos trazer consequências jurídicas embaraçosas. Daí vem a força dos símbolos e das tradições, e por isso são suprimidas nos regimes totalitários, como se constatou nos regimes socialistas modernos e tão bem retratados por George Orwell.

 

Por fim, concordo com Frye quando diz que esse ambiente ideal, que pode ser visto nas paisagens imaginárias, só pode advir de algo que em nossa educação nos foi sugerido, como cultura, com valores e elementos do que se pensou e se disse. Esse é o poder da imaginação.

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