Por Marcelo Albuquerque

 

O interesse pela cor é decorrente da minha experiência como artista e como professor. A cor sempre foi um ponto que implicou decisões dramáticas, seja por aspectos compositivos, simbólicos, psicológicos e técnicos. O uso da cor não é uma questão puramente prática; ela implica uma série de conhecimentos adquiridos na história e na estética, que devem ser entendidos no decorrer da formação artística. O desejo de pesquisar a cor vem, portanto, do interesse em promovê-la a um nível fundamental na formação artística, por acreditar firmemente na sua importância como referência para as diversas disciplinas artísticas. Assumindo esse caminho, a questão da cor como estudo autônomo e aprofundado, se justifica em um ambiente heterogêneo hibridizado pelas mídias contemporâneas. A atual realidade proporciona uma visão mais ampla devido às áreas do conhecimento que se agregaram às academias e escolas atuais, especialmente as universidades que oferecem cursos superiores em artes plásticas. As escolas de arte, hoje, dada às atuais perspectivas, independente das visões pedagógicas ou metodológicas, não se destinam exclusivamente à formação de artistas. As academias renascentistas surgiram para a formação exclusiva de artistas, em um ambiente erudito e de difícil acesso. A partir do desenvolvimento da Arte e Indústria no século XIX, os limites acadêmicos se diluíram da mesma forma que as manifestações artísticas se expandiram e que hoje se inter-relacionam. É impossível exercer o estudo da cor sem os fundamentos clássicos presentes na filosofia, ciência e arte.

 

É inegável que um estudante de arte não se sinta alheio às cores após passar pelo estudo artístico da cor. A cor, sensação que encanta os homens desde a sua autoconsciência, o fascina e o inspira desde os tempos mais remotos. O mundo é visto com mais cuidado, com maior atenção, com uma consciência científica e artística ao mesmo tempo. Como professor, é raro encontrar um aluno que não tenha se apaixonado pela cor após passar por estas experimentações. Muitos retornam, após algum tempo, comentando que continuam prosseguindo, de alguma forma, a evoluir no entendimento da cor. Nas aulas de cor, nunca um exercício deverá ser feito para ser descartado no final de uma disciplina ou curso; deverá fazer dele um exemplo de processo e transformá-lo em algo produtivo e agradável. Ter a consciência de transformar todo o seu estudo em algo bom e pedagógico é o primeiro passo para valorizar seu próprio trabalho como profissional. Adquirir autoconfiança é fundamental.

 

2012 - Laboratorio de cor - aquarela - 295 x 21 cm - 01

Marcelo Albuquerque: Laboratório de cor. Aquarela e nanquim sobre papel, 29 x 21 cm, 2012.

 

O estudo da cor sempre deverá acompanhar a realidade onde se inserirá, bem como a disponibilidade e a demanda de materiais. Dever-se-á utilizar tudo o que estiver à mão ao seu favor; um retalho de papel aparentemente considerado lixo pode ser muito útil. Mas será preciso estar atento à qualidade das tintas, pois, como vimos, quando a arte e ciência se encontram, devemos seguir especificações corretas de pigmentação e constituição química. A pesquisa e adaptação de bibliografia levam à criação de novos problemas a serem expostos aos alunos e a si mesmo; exercícios clássicos muitas vezes são atemporais e adquirem roupa nova em cada geração.

 

É da natureza do estudo da cor fornecer conhecimentos científicos, artísticos, simbólicos e psicológicos. O artista plástico, que compreende os princípios da cor, seja pelos materiais ou pela estética, eleva as possibilidades de estruturação de ideias e desenvolvimento técnico, mesmo que a cor não participe enfaticamente de seu trabalho.

 

O estudo da cor é flexível e pode se adequar a diversas disciplinas, através da utilização de pesos (foco de estudo) relativos aos assuntos mais relacionados à determinada disciplina. A inclusão de pesos indica que determinadas áreas do estudo da cor se relacionam em maior profundidade com a intenção particular do campo de estudo. Tomemos alguns exemplos simples:

 

Se o estudo da cor se efetuar para estudantes de pintura, a disciplina ou curso deverá equilibrar ciências, percepção, psicologia, comunicação, filosofia e história da arte. É necessário comentar os períodos históricos artísticos e filosóficos, além de abordar os princípios conceituais na contemporaneidade. Outros estudos se somam a esse, como as questões da cor na linguagem. Particularmente acredito, para uma disciplina de pintura de um curso de artes plásticas ou visuais, o ponto mais importante é o que trata da estética e história da arte, por abordar os principais pontos intelectuais e reflexivos da pintura em si, reafirmando a pintura como uma atividade intelectual herdada de longas tradições.

 

É importante que o artista tenha um bom conhecimento de pigmentos, corantes e formação da cor, bem como a durabilidade e estabilidade cromática, além dos processos de formação das cores na luz. Não que o artista trabalhe para garantir a eternidade de suas obras, mas que ele tenha opções na utilização mais adequada de seus materiais. Um estudante de conservação e restauração, por exemplo, deverá dominar amplamente esses conhecimentos, que se relacionam com a natureza física e química dos materiais (tintas, pigmentos, corantes, durabilidade da cor, etc.). A área da conservação e restauração provavelmente possui uma das mais exigentes sistematizações da cor, de acordo com suas necessidades, por se tratar de uma área também científica. Entretanto, ao conservador-restaurador, é necessária uma sólida formação teórica artística, dos simbolismos e usos da cor na história da arte, aproximando-o de um contato mais próximo com os artistas.

 

Estudantes de design e comunicação certamente devem dominar os conceitos fundamentais da percepção, contrastes e aspectos psicológicos da cor, para promoverem leituras eficientes de suas criações. Profissionais e professores de arte devem conhecer em profundidade as metodologias e sistemas de cor utilizados na história, relacionando-o aos demais conhecimentos da cor. Inclui os sistemas e discos cromáticos adotados pelos artistas e pela indústria, além da evolução da cor no estudo e ensino de arte.