Por Marcelo Albuquerque

 

O grupo CoBrA tem por excelência a renovação do expressionismo na metade do século XX. Eles se opunham às principais correntes artísticas de sua época, como o racionalismo da abstração geométrica e o proselitismo do realismo social dos países comunistas. Utilizavam elementos tanto da pintura figurativa como da abstrata, mesmo assim rejeitando tradições, e a matéria. Para o CoBrA, o objetivo era a universalidade da arte, a busca de uma inocência perdida, através da arte popular, da arte primitiva, da arte das crianças. De certa forma, deram continuidade a alguns princípios surrealistas, no sentido de libertar o subconsciente e subtrair as influências civilizadoras da arte, desacreditadas após a II Guerra[1]. Gage menciona a importância do teórico Franz Cisek, que influenciou artistas como Rothko e na observação do papel da cor na arte das crianças como forma de obtenção de conhecimento e desenvolvimento psicológico. Goethe, na sua doutrina, já confirma o uso de cores fortes associadas ao primitivo, selvagem e ao infantil. Segundo Goethe:

Por fim, é interessante notar que nações selvagens, povos primitivos e crianças sentem grande atração por cores vivas, que os animais se enfurecem com certas cores, e que homens sofisticados evitam cores vivas nas roupas e no ambiente que os cerca, procurando em geral delas se afastarem (GOETHE, 1993, p. 84).

 

As cores fortes de Karel Appel condizem com uma estrutura mais elementar, formada por cores primárias e secundárias, as cores mais usadas por naifs e crianças. O CoBrA compartilha com Jean Dubuffet a ênfase nas fontes intuitivas e primordiais da arte, ao explorar novos materiais e técnicas que, segundo Dempsey, será um exemplo para artistas como o pop Claes Oldenburg[2]. De forma semelhante, a abstração gestual (arte informal, tachismo) considerava inadequadas as postulações dos abstracionistas geométricos, já que as experiências do pós-guerra, como a pobreza, o sofrimento e a raiva permeavam o imaginário de uma nova geração de artistas, interessados em uma nova forma de comunicação visual, percebida pelo interesse pela caligrafia, como visto em Cy Twombly. Patrick Heron tinha pela cor o seu tema e preocupação principal. Em 1962 ele declara que a pintura tem um continente a ser explorado, somente na direção da cor[3].

 

Argan reconhece no surrealismo que a arte já não tem uma circulação e função social, a menos que sua função seja libertar o indivíduo e a sociedade da repressão da razão, para devolvê-los à autenticidade dos instintos. Sendo assim, a pintura de Miró é caracterizada pela completa ausência de censuras; evita até mesmo atribuir significados simbólicos às imagens, para não as justifica-las (a justificação seria uma censura). A motivação inconsciente está na pureza do signo e da cor, um prolongamento profundo do artista. É uma pintura claramente lúdica, não séria, que Alexander Calder levaria à sua obra.

 

A revalorização dos movimentos modernos do início do séc. XX, como o neoexpressionismo de Anselm Kiefer e o Neo Fauve de Rainer Fetting são típicos deste grande grupo chamado pós-modernismo, de difícil definição, com fronteiras enevoadas e aglutinação de movimentos modernistas até então incongruentes. A obra neoexpressionista recorre à história da pintura e emprega seus materiais e temas tradicionais. Força e cor são latentes no artista alemão A.R. Penck, que contrastam com cores tênues de Gerhard Richter dos anos 80. Jenny Saville nos transporta a Rubens.

 

A Transvanguarda marca um retorno a uma pintura caracterizada pela violenta expressividade e ressonâncias românticas e nostálgicas. Coloridas, sensuais e dramáticas, evocam prazer pela redescoberta dos aspectos táteis e expressivos dos materiais[4]. A cor se revaloriza diante da reação à “morte da pintura”. As obras de Francesco Clemente reforçam o preceito de arte como auto expressão, onde a cor assume uma das principais forças constitutivas. Segue Dempsey:

[…] A abordagem cerebral desses movimentos e sua preferência pela abstração purista foram escarnecidas pelos neoexpressionistas, que aderiram à arte ‘morta’ da pintura e prestigiavam tudo aquilo que havia sido desacreditado – a figuração, a emoção declarada, a autobiografia, a memória, a psicologia, o simbolismo, a sexualidade, a literatura e a narrativa. (DEMPSEY, 2003, p. 276)

 

No cenário contemporâneo, destaca-se a vigorosa pintura de Franz Ackermann, cujas pinturas apresentam espaços arquitetônicos que mesclam formas geométricas e orgânicas, orientações cartográficas, como nome de ruas e fragmentos de mapas, com superfícies de cores industriais contemporâneas fortes e saturadas.  Em outras pinturas, percebemos recortes de uma realidade urbana fragmentada e caótica, à maneira de uma colagem cubista com uma estética pop. Até certo ponto, sua pintura mantêm um parentesco cromático com os expressionistas e com os artistas pop.

 

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Franz Ackermann: Morro acima novamente, 2013-14. Óleo sobre tela. Pinacoteca do Estado de São Paulo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2016.

 

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Franz Ackermann: Novos anúncios para São Paulo: B.I.T. (back in town) Novamente new ads for São Paulo: B.I.T. Again. 2011. Óleo sobre tela. Coleção particular. Em exposição no CCBB-BH. Foto: Marcelo Albuquerque, 2016.

 

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Franz Ackermann: Vulcano. 2010. Óleo sobre tela. Coleção particular. Em exposição no CCBB-BH. Foto: Marcelo Albuquerque, 2016.

 

[1] DEMPSEY, 2003, p. 195.

[2] DEMPSEY, 2003, p. 174

[3] DEMPSEY, 2003, p. 184

[4] DEMPSEY, 2003, p. 282.