Por Marcelo Albuquerque

 

A arquitetura e o uso da cor manifestam as reverberações pop, como ocorre na cidade de Belo Horizonte, no edifício conhecido por “Rainha da Sucata”, na Praça da Liberdade. Embora o termo pós-modernismo seja um termo que desperte controvérsias, é usado para definir boa parte dos aspectos artísticos do último quarto do século XX. De certo modo, o pós-modernismo é uma rejeição ao modernismo ao mesmo tempo em que é uma prolongação dele. Enquanto o modernismo, de forma geral, desejava criar uma utopia moral e uma estética universal, o pós-modernismo celebra o pluralismo do final do século XX. Esse pluralismo é percebido pelos veículos de comunicação em massa e a proliferação das imagens. Boa parte do enfoque pós-moderno está na questão de representação, citações e apropriações em novos contextos ou despojados de seus significados tradicionais (desconstruídos). Foi aplicado originalmente à arquitetura, nos anos 1970, para definir as construções que se afastavam do ideal racionalista e funcionalista que marcaram o modernismo, culminando no Estilo Internacional, em troca de estruturas ambíguas e contraditórias, permitindo a inserção de elementos historicistas, ecléticos, de outras culturas e cores ousadas[1]. Polêmico desde o nascimento, o edifício ainda causa repulsa e admiração, para leigos e entendidos: para muitos, representa o próprio mau-gosto edificado, kitsch, desproporcional e agressor de seu entorno. Para outros, uma jóia da arquitetura contemporânea pós-moderna brasileira. Dialogando de forma irônica e irreverente com o entorno, o edifício é composto por colagens e citações que compõem um projeto de grande expressão imagética. A arquitetura pós-moderna revalida a ambiguidade e a ironia, a pluralidade dos estilos, o duplo código que lhe permite voltar-se tanto ao gosto popular (citações históricas e vernaculares) quanto aos métodos compositivos arquitetônicos mais eruditos. Éolo Maia e Sylvio de Podestá privilegiaram a utilização de formas e cores derivadas das artes plásticas, adaptando-as ao contexto tecnológico, construtivo e funcional, de maneira análoga a proposta do arquiteto Robert Venturi do “elemento de duplo funcionamento”, referindo-se ao abandono da ideia da “forma seguir a função”, de Louis Sullivan, para uma agregação da função a um elemento estético. É o que acontece com o elemento de ventilação dos sanitários públicos masculinos, em forma de laranja partida, que ao mesmo tempo em que camufla a estrutura (duto de ventilação) faz referência ao contexto pop de apropriações, colagens e montagens, a maneira do pintor pop Roy Lichtenstein. Internamente, o tratamento plástico e volumétrico representa elementos do barroco mineiro através de formas e materiais. Paolo Portoghesi também aponta a associação da Pop Art em relação aos objetos banais e a possibilidade de reintroduzi-los numa operação conscientemente artística[2].

 

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Charles Moore. Piazza d´Italia, Nova Orleans, 1975-80. Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Piazza_d%27Italia,_New_Orleans. Acesso em: 15 set. 2017.

 

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Éolo Maia e Sylvio de Podestá: Centro de Informação ao Visitante (Rainha da Sucata). Praça da Liberdade, Belo Horizonte. Foto: Marcelo Albuquerque, 2017.

 

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Éolo Maia e Sylvio de Podestá: Centro de Informação ao Visitante (Rainha da Sucata). Praça da Liberdade, Belo Horizonte. Foto: Marcelo Albuquerque, 2017.

 

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Éolo Maia e Sylvio de Podestá: Centro de Informação ao Visitante (Rainha da Sucata). Praça da Liberdade, Belo Horizonte. Foto: Marcelo Albuquerque, 2017.

 

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Roy Lichtenstein e Diego Delgado: A Cara de Barcelona, 1991-92. Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:La_Cara_de_Barcelona. Acesso em: 15 set. 2017.

 

[1] DEMPSEY, 2003, p. 271-272.

[2] PORTOGHESI, 2002, p.116.

 

Veja também:

Cor industrial

Cor integral