Vanguardas Russas

Por Marcelo Albuquerque

De acordo com Argan, as vanguardas russas são os únicos movimentos de vanguarda a estarem envolvidos no processo revolucionário concreto, com forte carga ideológica, com profundas propostas de transformações estruturais e de operações artísticas[1]. As vanguardas russas têm como características principais dois pontos: o uso de elementos geométricos puros (consequentemente a redução dos matizes de cores) e a mentalidade revolucionária. Segundo Argan, para as vanguardas russas, a verdadeira revolução não é a substituição de uma concepção de mundo decadente por uma nova concepção, mas um novo mundo destituído de objetos, passado e futuro, onde o objeto e o sujeito seriam reduzidos ao “grau zero”. As abstrações geométricas abarcam diversos movimentos. Malevich, que anteriormente havia exposto com o grupo dos raionistas em Moscou, buscou uma arte, segundo suas próprias palavras, que fosse livre do peso da representação, e buscou na forma do quadrado seu refúgio. Segundo Argan, Malevich não se ocupou da exaltação revolucionária, mas atuou na formação da mentalidade revolucionária. “A concepção de um mundo ‘sem objetos’ é, para ele, uma concepção proletária porque implica a não-propriedade das coisas e noções” (ARGAN, 1998, p. 325). As formas geométricas puras, não encontradas na natureza e na pintura acadêmica, simbolizavam para ele a supremacia do mundo ideal sobre o mundo das aparências. Segundo Dempsey, Malevich era um místico cristão, como Kandinsky, e acreditava que a arte era uma atividade espiritual que deveria se apresentar pela autonomia da cor e da forma, e não subordinada a um projeto social, utilitário ou político (o que contradiz o ateísmo revolucionário). Ele comungava as relações entre cores, formas e sons, o espírito das realizações científicas e principalmente a sensação de infinito atribuída a esse plano ideal, onde as formas se distribuem. Pastoureau comenta que, no célebre Quadrado branco sobre fundo branco, Malevich não tenta evocar o branco como cor, mas o contrário, rejeita-o como cor concreta, se opondo aos construtivistas russos. Apesar da extrema proximidade formal com o Suprematismo, ao contrário de Malevich, para Vladímir Tátlin, o Construtivismo se destina a um objetivo social, vinculado ao projeto marxista-leninista em curso desde a Revolução de 1917. A distinção entre as artes deve ser eliminada, como na Arte e a Indústria, de forma mais radical, alimentada pela mentalidade bolchevique. A arte não deve ser mais “luxo dos ricos”, como no passado. Não existiria mais distinção de artes maiores e artes menores: uma cadeira não se difere de uma escultura. A pintura e a escultura são construções, e não representações; devem usar os mesmos materiais e procedimentos técnicos da arquitetura que, por sua vez, deve ser funcional e visual. Muitas de suas proposições, como a renúncia do uso descritivo e emocional da cor, linha, massa e volume, e o uso de materiais industriais “puros” e “concretos”, eram incontestáveis pelos construtivistas (que também se denominavam “produtivistas”.

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Kasimir Malevich: Sem título, 1916. Óleo sobre tela. Peggy Guggenhein Collection, Veneza. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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