Por Marcelo Albuquerque

 

No final do século XIX a cor tornou-se um foco, e em muitos círculos, a preocupação central de pintores e seu público. Tanto a pintura feita fora do ateliê no Impressionismo como a pintura feita dentro do ateliê dos Simbolistas garantiram à arte moderna a característica poderosa do estudo da cor. Os rudimentares sistemas de cores do século XIX tornaram-se complexos e extensos esquemas cromáticos, como em Ostwald[1] na Alemanha e Munsell nos Estados Unidos, ambos baseados nas novas técnicas de testes psicológicos de diferenciação de cores e de uma representação universal de relações entre as cores. Ogden Rood, autor de Modern Chromatics, influenciou Albert Munsell no desenvolvimento de seu sistema cromático, baseado na imagem consecutiva e contraste simultâneo. Munsell publicou seu primeiro livro Notas sobre a cor (1905), baseado em um círculo de dez cores e um arranjo esférico parecido com o de Runge. Ostwald passou parte de seu tempo aplicando novas técnicas de medição da cor com aproximação matemática na psicologia da cor. Em 1912 ele se juntou ao comitê do Werkbund Alemão. Ostwald criou o Farbschau (Mostra de cores) de tintas industriais e pigmentos, demonstrando a necessidade de sistematização do estudo dos fundamentos cromáticos, produzindo o seu primeiro livro Die Farbenfibel (Cartilha da cor), de 1916. Como grande parte dos membros do Werkbund, Ostwald era um socialista pleno que acreditava que a arte era um produto essencialmente social e que a era do individualismo deveria se tornar a era da organização. Os sólidos de cor de Ostwald foram os primeiros diagramas a enfatizar o material, a qualidade de repetição das unidades de cores, possibilitando a sua reprodução por parte de designers e pintores. Ele utilizou papéis coloridos, um método experimental utilizado mais adiante por Josef Albers. Ostwald descrevia que seu entendimento da harmonia das cores veio enquanto estava preparando suas pranchas para o Farbenatlas (Atlas das cores) de 1918. Dessa forma, sua formação matemática mostrou-se empirista. O empirismo tinha sido um componente importante da teoria científica da cor em toda a Europa. Foi proeminente entre os estudiosos do século XX, com a abordagem científica da cor, com ênfase cada vez maior em matéria de normalização e quantificação. Porém tornou-se cada vez menos atraente para os artistas. A obra de Ostwald transitou principalmente entre a cultura modernista germânica. Sua posição chave no Werkbund e suas publicações durante os tempos de guerra trouxe a ele um público importante, e organizou o primeiro Dia de Conferências Alemão sobre Cor junto à conferência do Werkbund em Stuttgard em setembro de 1919. A ocasião foi marcada pelo debate entre o grupo de Ostwald e o grupo do pintor e professor Adolf Hoelzel, um dos primeiros pintores abstratos da Alemanha. Hoelzel declarou que havia usado por volta de quinze teorias da cor em suas aulas, incluindo as de Chevreul, Helmholtz, von Bezold, Rood, Brücke e Ostwald, todos eles trabalhados de forma a beneficiar o artista. Hoelzel elogiou Goethe considerando-o o mais compreensivo guia, desde o seu sistema baseado na polaridade, como o próprio Hoelzel, postulando sete tipos de contraste (próximo aos contrastes estabelecidos por Johannes Itten), sendo o mais importante o das cores complementares, por estabelecer a harmonia. Mesmo baseando suas ideias de cores complementares de Bezold e Ostwald, Hoelzel argumentou que o olho é sempre o árbitro final e que a arte e a ciência nunca poderão ser parceiras ou niveladas no estudo da cor. As características fisiológicas são um dos fatores importantes, observando a natureza original da arte das crianças e primitivos em comparação com as harmonias calculadas de cientistas[2].

Na primeira década do séc. XX, Munsell desenvolveu um novo sistema de cor tridimensional que revolucionou a indústria da cor por ordenar as cores em três eixos em um espaço cilíndrico. Diferente dos sistemas bidimensionais (discos), o sistema de Munsell apresenta cores que possuem maior ou menor saturação, ocupando posições mais avançadas ou recuadas entre os eixos, formando uma configuração de árvore, tendo como “tronco” o eixo radial do preto ao branco, até os “galhos”. A partir dele, foram desenvolvidos diversos sistemas cromáticos e digitais, como os CIE, HSV, HLS e o HSB[3]. O sistema de Munsell apresenta três distinções de cores:

  • Tom (Hue): é a cor saturada, pura, matiz. Nem sempre a palavra matiz é vista em livros e manuais.
  • Croma (Chroma): é determinada pela influência de uma cor em relação à sua complementar, quando misturadas.
  • Valor (Value): a cor e sua relação com a escala de cinzas, a luminosidade.

Como veremos mais adiante, esses sistemas de cores serão a base para diversos artistas enfrentarem a situação da cor na contemporaneidade.

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Os sólidos de cor de Ostwald de 1918. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://de.wikipedia.org/wiki/Wilhelm_Ostwald. Acesso em: 23 jan. 2017.

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Sistema de cor de Munsell. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_de_cores_de_Munsell. Acesso em: 23 jan. 2017.

 

[1] Químico e físico, prêmio Nobel em 1909. Foi pintor amador em um pequeno grupo em Munique, com bastante interesse na instabilidade dos pigmentos e materiais de pintura. Suas experiências resultaram em um pequeno livro chamado Malerbriefe (Cartas para o pintor), em 1904. Foi bem recebido por parte de alguns pintores, sendo mencionado por Paul Klee em cartas (Klee mais tarde viria a ser um amargo opositor de suas idéias) (GAGE, 1993, p. 247).

[2] GAGE, 1993, p. 247.

[3] FRASER, 2008, p.46.