Por Marcelo Albuquerque

 

Foi com a Doutrina das Cores que a dimensão simbólica e sensível da cor alcançou grandes proporções, não vinculando as cores apenas aos aspectos físicos mecanicistas derivados de Newton. De certa forma, foi uma premonição do que viria a acontecer na arte moderna: a cor como possibilidade de expressão autônoma. Entretanto, a Doutrina foi rejeitada pelo meio científico, pois Goethe havia polemizado e contestado erroneamente a teoria de Newton em diversos aspectos, causando má impressão entre filósofos e cientistas. Ele conclui, equivocadamente, que as luzes coloridas não se formam pela decomposição da luz branca, que seria impossível, pois as cores mais escuras, misturadas, não poderiam gerar cores mais claras. Sendo assim, a indivisibilidade da luz era inquestionável para ele. Segundo Giannotti, o principal mérito de sua análise foi abordar a cor como fenômeno que escapa à física, onde a imaginação e a poesia ativam-na como fenômeno vivo, para além da descrição conceitual[1]. Para Lichtenstein, Goethe se vê confrontado com a separação estrita entre a ordem da objetividade científica e a possibilidade de uma experiência baseada na percepção e nos sentidos[2]. De acordo com Goethe:

Em todo o mundo sensível, tudo depende em geral da relação dos objetos entre si, mas principalmente da relação que o objeto mais importante da terra, o homem, estabelece com o resto (GOETHE, 1993, p. 91).

Outro foco de estudo foi o aparelho visual humano e a percepção dos fenômenos cromáticos e luminosos.  Goethe postula que, as até então chamadas disfunções e distorções da visão – pós-imagem, ilusões de ótica – são fundamentais para a percepção e organização da imagem para o cérebro, e que são naturais nos olhos saudáveis, fazendo parte da nossa forma de ver. Esses fenômenos geram equilíbrio e fundamentam alguns princípios da harmonia. Observou a persistência das cores na retina e a posterior compensação, o efeito da pós-imagem gerado pela fadiga das células sensitivas do olho. Isso viria a ser conhecido como a “teoria dos contrastes simultâneos”, desenvolvido mais adiante pelo químico francês Eugène Chevreul, como um dos fundamentos dos pintores impressionistas. O princípio da harmonia cromática, proporcionada pela satisfação retiniana do equilíbrio entre cores complementares, foi apontado por Goethe como um princípio científico estético, fonte inconsciente de equilíbrio.

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Contraste descrito por Goethe. Adaptado de GOETHE, 1993, p. 56.

Para Goethe, a importância das cores na arte se relacionava, além da própria estética, com a espiritualidade e a moral. Goethe também desenvolveu pesquisa sobre a relação da música com as cores e distinguiu a diferença entre cor luz e cor pigmento.

Goethe,_Farbenkreis_zur_Symbolisierung_des_menschlichen_Geistes-_und_Seelenlebens,_1809

Friedrich Schiller e John Wolfgang Goethe. Círculo de temperamentos – Temperamentrose, 1825. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_das_Cores_(livro). Acesso em 12 fev. 2017.

 

A valorização de seus escritos ocorreu nos séculos XIX e XX, no Romantismo e na arte moderna. Kandinsky e Klee, professores da Bauhaus, percebiam em Goethe a ligação entre o espiritual e a arte, as relações místicas e transcendentais emanadas pela cor, embebidos também pela antroposofia de Rudolf Steiner, que em linhas gerais, pode ser definida como busca do conhecimento gnóstico humano físico e espiritual. Estudaram as intensidades cromáticas, a cor como elemento autônomo, o poder de atração e distanciamento e, consequentemente, fundaram as bases da arte abstrata.

Giannotti aponta que os escritos de Ludwig Wittgenstein, em defesa da visão das cores como linguagem (na filosofia da linguagem), foram antecipados por Goethe[3]. As cores são conceitos construídos. Estão sempre articuladas numa linguagem cuja gramática tem de levar em conta toda a escala cromática. A visão se associa à linguagem com uma gramática conceitual sem a qual não identificaríamos as cores.

Em linhas gerais, de acordo com o interesse desse assunto, a Doutrina das Cores de Goethe tem como fundamentos os seguintes pontos:

  • O contraste é uma denominação da relação entre duas ou mais cores, e a interdependência entre elas. Uma cor influencia outra quando próximas, potencializando sua força ou diminuindo sua expressividade. Goethe descreve esse fenômeno observando o aumento e diminuição da forma de acordo com o contraste, e das alterações de cinza de acordo com o fundo branco e preto.
  • Existem apenas duas cores puras, o azul e o amarelo, que também são primárias. O vermelho é uma cor específica que ambas proporcionam. O verde e a púrpura são as duas misturas. O restante das cores não são cores puras.
  • Quando amarelo (que surge da luz) se mistura com o azul (que surge da escuridão), em perfeito equilíbrio, surge o verde. O vermelho, por outro lado, é produzido pelos extremos do amarelo e do azul. O vermelho pode ser considerado cor primária.
  • A luz não é composta por cores nem por pigmentos. As cores são estimuladas junto à luz, não sendo derivadas dela. Elas aparecem junto à luz. As cores decorrem dos fenômenos de consciência, ou seja, se formam pela luz, pelas propriedades dos objetos, pelo olho e pelo sistema nervoso. Goethe afirma que a cor deve ser analisada de acordo com o órgão da visão, e não apenas através de instrumentos óticos, pois o olho é um órgão vivo.
  • Cor e som não podem ser comparados; mas ambos remetem a uma formula superior passível de dedução.
  • Os conhecimentos dos antigos e medievais não podem ser desdenhados pela ciência contemporânea. É preciso entender como os fenômenos foram, aos poucos, sendo entendidos. Escrever uma história é algo incerto, e pode ser injusto (também de acordo com a visão de Michel Pastoureau). Goethe retoma um conceito da Antiguidade, onde o azul se vincula ou origina-se no preto, percebendo que a mistura de amarelo e preto dá verde, assim como amarelo e azul dá verde.
  • Goethe descreve os fenômenos conhecidos atualmente como contraste simultâneo e pós-imagem. Segundo Goethe:

“O olho se põe em atividade logo que percebe a cor e é de sua natureza produzir imediatamente, de forma tão inconsciente quanto necessária, uma outra que, juntamente com a primeira, compreende a totalidade do círculo cromático” (GOETHE, 1993, p. 146).

  • Goethe divide as cores em três categorias: cores fisiológicas, cores físicas e cores químicas. As cores fisiológicas dizem respeito ao funcionamento do olho humano. As cores físicas são aquelas que se originam de certos materiais incolores, que podem ser transparentes, turvos, opacos ou translúcidos. São produzidas fora do olho.
  • Goethe define as cores básicas puras, ou primárias, como amarelo, azul e vermelho. Vermelho e azul produzem violeta; vermelho e amarelo, laranja; amarelo e azul, verde.
  • As cores químicas são as cores inerentes aos objetos, que podem ser extraídas e transmitidas a outros corpos, como os pigmentos. Tem durabilidade efêmera ou longa. Todas as cores dos minerais são de natureza química, assim como as sintetizadas.
  • A Doutrina das Cores pode ser separada da geometria e da matemática, enquanto a óptica não.
  • A linguagem é simbólica e figurada e jamais exprime diretamente os objetos, apenas os seus reflexos.
  • As cores proporcionam estados de ânimos distintos. O homem natural, povos primitivos e crianças têm inclinação para cores em sua máxima energia. Homens sofisticados têm aversão às cores, e a cor preta fazia o nobre veneziano pensar na igualdade da república.
  • Os materiais cromáticos e as técnicas não fazem arte por si; somente o gênio e o espírito a faz. De acordo com o espírito da época, a Doutrina das Cores terá aplicações e interpretações alegóricas, simbólicas e místicas.

Os artistas românticos buscaram novas traduções para a cor em posições espaciais. A esfera de Runge foi uma pioneira na tentativa de coordenar a paleta dos pintores pelos tons e valores de branco e preto de forma mais coerente. Ele usou as três cores primárias azul, vermelho e amarelo arranjadas em um esquema complementar em torno da linha do equador. No texto que acompanha a imagem, Runge orienta o leitor para os aspectos simbólicos e psicológicos das cores, de acordo com os poetas contemporâneos Schiller e Goethe, que relataram as polaridades da cor em quatro temperamentos tradicionais – otimista, melancólico, fleumático e colérico. Sua teoria resultou em um estudo chamado Tempos do Dia, divididos entre Amanhecer, Meio-dia, Entardecer e Noite, percebidos em algumas de suas pinturas, como A Pequena Manhã, de 1808. Runge, em 1803, se encontra com Goethe e mantém contato esporádico até sua morte em 1810. Como Goethe, Runge esperava ver as funções da cor exemplificadas na pintura; e seu exemplo mais importante é a série Horas do Dia, onde articulou o universo da cor em composições alegóricas. Runge apresenta uma visão quase mística da cor, através da associação da Tríade Divina com as cores primárias azul (Pai), vermelho (Filho) e amarelo (Espírito Santo). O sistema esférico de Runge pretende descrever e encontrar harmonias cromáticas. As cores puras e suas misturas situam-se no equador da esfera, e enquanto se aproximam do centro, pendem para a cor cinzenta média. Assim, as cores tornam-se escuras em direção ao polo inferior até atingir o preto, e tornam-se claras, até ao polo superior, atingindo o branco. No interior da esfera verificam-se as variadas sucessões de cores e possíveis combinações entre cores puras, branco e preto.

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Philipp Otto Runge. Esfera de Cor, 1808. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Philipp_Otto_Runge. Acesso em 12 fev. 2017.

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Philipp Otto Runge. A Pequena Manhã, 1808. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Philipp_Otto_Runge. Acesso em 12 fev. 2017.


[1] GOETHE, 1993, p. 11.

[2] LICHTENSTEIN, 2006, p. 73.

[3] GOETHE, 1993, p. 23.