Aproximações científicas da cor na arte

Por Marcelo Albuquerque

Aponto uma tradição científica da cor na arte como aqueles artistas que, em maior ou menor grau, pesquisam as manifestações da cor com suportes científicos, através da química, física e fisiologia humana, principalmente. Entretanto, a ciência não isenta as obras artísticas da leitura poética ou metafísica, pois, como foi dito anteriormente, as cores na arte também se subordinam às questões sociais e psicológicas. Mesmo que o Impressionismo e o Neoimpressionismo se valham de princípios científicos contemporâneos para entender o fenômeno da cor, a arte impressionista carrega em si uma abrangência poética jamais experimentada na arte ocidental até então.

Cruz-Diez_2013_Grand_Palais_Paris_France

Carlos Cruz-Diez: Chromosaturation. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://fr.wikipedia.org/wiki/Carlos_Cruz-D%C3%ADez. Acesso em 12 fev. 2017.

Carlos Cruz-Diez e os artistas cinéticos do século XX representam com clareza uma manifestação da arte contemporânea onde a cor tem evidente relação com a percepção fisiológica humana. As pesquisas de Cruz-Diez se concentram nos efeitos psicológicos e retinianos da cor, na continuidade das investigações do contraste simultâneo, típicas do séc. XIX, nas relações entre cor e forma, cor e espaço, entre outras. Sua obra Chromosaturation, de 1965 a 2010, é um ambiente artificial composto de três câmaras de cor, um vermelho, um verde e um azul, nas quais o visitante se insere em uma situação completamente monocromática. Essa experiência cria distúrbios na retina, acostumada a receber ampla gama de cores simultaneamente. De acordo com o seu website oficial, o Chromosaturation pode atuar como um disparador da ativação da noção de cor no espectador como um material ou uma situação física, passando para o espaço sem o auxílio de qualquer forma ou mesmo sem qualquer apoio, independentemente de crenças culturais[1]. Além de pertencer a uma tradição científica, essa obra também poderia estar no eixo da tradição espacial da cor, já que a cor se manifesta no espaço e contexto arquitetônico.

O Ciclorama 2000, de Sanford Wurmfeld, como outros trabalhos do artista, é baseado no círculo de cor tradicional, e pertence a uma longa tradição da cor na arte, como afirma Gage[2]. São pinturas de enorme efeito em uma superfície interior de um cilindro grande, elevada em uma plataforma onde os espectadores entram por debaixo de uma escada até ao centro da pintura[3].  O Ciclorama 2000 é basicamente um círculo de cor simples, com vinte e quatro matizes do espectro, com variações de valor (claro e escuro).  Wurmfeld cresceu em Nova York, em um momento em que os expressionistas abstratos estavam pintando seus maiores quadros. Para Gage, seu conhecimento das teorias e do comportamento da cor liga-o à tradição dos artistas cientificistas, como Seurat, reafirmando a relação dinâmica entre as cores e outros aspectos como a harmonia entre elas.

 

[1] Disponível em: http://www.cruz-diez.com/work/chromosaturation/. Acesso 21 dez. 2012.

[2] GAGE, 2012, p. 42.

[3] O nome deriva de Panorama, termo criado em 1788 pelo pintor escocês Robert Barker, que sustentou que suas paisagens eram uma nova forma de pintura, patenteando o nome Panorama. O espectador ficaria no centro da pintura, sem nenhuma ligação visível com o mundo além da tela. Este efeito foi almejado pelos artistas barrocos quando desenvolveram pinturas ilusionistas em conjunto com a arquitetura.  Mais adiante, Panorama se tornou uma forma popular de entretenimento visual.

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