Por Marcelo Albuquerque

 

O historiador da arte Heinrich Wölfflin, no livro Conceitos Fundamentais da História da Arte, pode contribuir com o estudo da cor com o seu método de análise formal e estilística, focada nas diferenças entre a arte renascentista e a arte barroca. Esse método esclarece formalmente, em parte, as questões do debate entre o desenho e a cor, apesar do autor não mencionar especificamente esse ponto. Ele definiu cinco conceitos fundamentais que também se aplicariam aos movimentos modernos, como o Impressionismo. São eles, em pares: linear e pictórico, plano e profundidade, forma fechada e forma aberta, pluralidade e unidade, clareza e obscuridade. A comparação entre o linear e o pictórico apresenta as principais características que se assemelham às disputas entre “poussinianos” e “rubenistas”. É importante ressaltar que esses fatos, peculiares à arte da pintura, também podem ser aplicados à escultura e à arquitetura. Destaco os principais pontos que interessam ao nosso assunto:

  • O linear se apresenta em linhas, destacando os contornos, e o pictórico por massas. O linear aconteceria na sua totalidade em Albretch Dürer. A cor se relaciona diretamente com o pictórico, através da modelagem das massas, como ocorre em Rubens e Rembrandt.
  • O contorno do desenho clássico está carregado de expressão e nele reside toda a beleza.
  • Mesmo a arte renascentista sendo predominantemente linear, é possível exercer os mesmos critérios de diferenciação entre escolas do período: os pintores florentinos podem ser considerados lineares; os venezianos pictóricos. Matthias Grünewald é mais pictórico que Dürer, mas ao lado de Rembrandt ele será imediatamente um mestre linear.
  • A trajetória de Rembrandt pode ser analisada dessa forma: seu início é linear, sua maturidade é pictórica.
  • O estilo linear fixa a aparência em favor da clareza formal e do ideal. O pictórico se relaciona com a impressão de movimento e do transitório.
  • Ele afirma que existe uma cor pictórica e uma outra não-pictórica. No colorido clássico, cada um dos elementos se coloca ao lado do outro como algo isolado, enquanto no colorido pictórico a cor isolada aparece firmemente arraigada no fundo geral (as cores de Holbein estão separadas como as células de um vitral. Em Rembrandt, a cor irrompe por toda a parte, com uma profundeza misteriosa.
  • A cor apresenta-se em estratos na arte clássica. As zonas de cores sucedem-se umas às outras, em suaves graduações, como vista na pintura de o Seguidor de Bouts. O barroco opta por conduzir a luz, distribuir a cor e desenhar perspectivas.

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Exemplo de pintura linear: Seguidor de Bouts. São Lucas pintando a Virgem Maria. Fonte: Wikipédia. Disponível em: http://ru.wikipedia.org/wiki/%D0%A4%D0%B0%D0%B9%D0%BB:Dieric_Bouts_-_Saint_Luke_ painting_the_Virgin.jpg. Acesso em 01 jan. 2012.

  • Na definição de pluralidade e unidade, Wölfflin argumenta que os quadros do século XVII dão preferência à luz concentrada num só ponto ou em alguns pontos de claridade máxima. Um tema tipicamente barroco é aquele em que a luz provém de apenas uma fonte num espaço fechado. Percebe-se a diferença entre pintores do Cinquecento para o barroco quando se constata que a justaposição clara e aberta renascentista das cores e formas desaparece, para mais adiante, no barroco, repousarem sobre um tom quase monocromático muito típico.
  • Na definição de clareza e obscuridade, a arte clássica coloca todos os meios a serviço da nitidez formal. As formas são obrigadas a mostrar o que tem de mais característico, e os contrastes são expressivos. O barroco rejeita a nitidez, sem a intenção de dizer tudo. A luz recebe um tratamento irracional e acidental, sem parecer objetivo e intencional. As poucas representações da noite no Renascimento evidenciam a precisão formal. No barroco, as figuras confundem-se com a obscuridade geral, e as formas são vagamente sugeridas. O Impressionismo, para Wölfflin, caracterizado pela luz e cor, terá certa obscuridade, segundo o autor, já que ele não oferece imagens perfeitamente nítidas; possui clareza e cor difusas, e uma inconsistência das formas.

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Exemplo de estilo pictórico. Ruysdael. Castelo Bentheim. C. 1650. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Jacob_van_Ruisdael. Acesso em 01 jan. 2017.