Por Marcelo Albuquerque

As cores tendem a se organizar na vida humana ora de forma social ora de forma científica. Até o início do Renascimento, as ideias platônicas e aristotélicas dominaram o cenário científico no que se refere às cores. Acreditava-se no conceito pitagórico dos raios de “fogo” emitidos pelos olhos a sondar o mundo, encontrando a cor nos objetos. Kepler questiona essas teorias, e dá os primeiros passos sobre o funcionamento fisiológico do olho humano, associado à luz e à matéria. Retornando a Aristóteles, ele explica, segundo Pastoureau, que a cor vem da luz, que se atenua ou obscurece ao atravessar diferentes objetos ou meios[1]. Por isso, as cores estão sobre um eixo que vai dos extremos – branco e preto -, com as demais cores no meio. O branco e preto permanecem como cores verdadeiras, o verde não está entre o azul e amarelo, e o violeta não é mistura de vermelho com azul (azul com preto).

Com Galileu, a ciência não é mais um saber a serviço da fé; não depende da fé e tem um objetivo diferente da fé. A Escritura contém a mensagem de salvação, porém não é sua função determinar a constituição dos céus e das estrelas. Sendo a ciência autônoma em relação à fé, a cor nas artes plásticas vai se alinhando progressivamente à ciência sem deixar, entretanto, de se alinhar aos conceitos filosóficos clássicos. Para Galileu, as cores, odores, sabores etc., são qualidades subjetivas que não existem no objeto, mas apenas no sujeito que as percebem, que a sente. A ciência é objetiva por não se interessar pelas qualidades subjetivas, mas pelas qualidades mensuráveis e quantificáveis[2].

Em 1675, Newton formulou a teoria da natureza corpuscular da luz, segundo a qual os fenômenos luminosos decorriam da emissão de partículas de diferentes grandezas: as menores davam origem ao violeta e as maiores ao vermelho[3].

Dentro do pensamento cartesiano, de acordo com a primeira regra do método de Descartes, não se deve acatar nunca como verdadeiro aquilo que não se reconhece ser tal pela evidencia, assim como nunca se deve abranger em nossos juízos aquilo que não se apresente tão clara e distintamente à nossa inteligência a ponto de excluir qualquer possibilidade de dúvida[4]. Entretanto, Descartes admite a existência de substancias distintas para a Alma (res cogitans) e corpo (res extensa). Reale conclui que, a partir daí a atividade cognoscitiva, mais do que se preocupar em fundamentar as conquistas pelo sentido metafísico, deve procurar a clareza e a distinção, traços típicos da primeira verdade que se impôs à nossa razão e que devem ser a marca de qualquer outra verdade. Para alcançar a clareza e distinção, é preciso seguir om itinerário da análise, da síntese e da verificação, para assim eliminar a dúvida. A filosofia então seria a doutrina do conhecimento, e não mais a ciência do ser[5]. Descartes considera secundárias as propriedades como cor, o sabor, o peso ou o som, porque não é possível ter delas uma ideia clara e distinta[6].

François d’Aguilon, um jesuíta polígrafo, próximo a Rubens, formulou uma teoria próxima à das cores primárias modernas. Em seu diagrama, em Opticorum libri sex, de 1613, ele situa o branco e o preto nos extremos, como cores “extremas” (e verdadeiras), as cores “médias” vermelho, azul e amarelo, e as cores “misturadas” verde, violeta e laranja[7]. É um dos primeiros registros da exclusão do verde como cor principal, rompendo com todos os usos sociais e simbólicos dessa cor até então, antecedendo a teoria das cores primárias e complementares. Sobre a interação do branco e do preto com as demais cores, d’Aguilon conceitua a ideia de intensidade[8].

Para John Gage, os círculos cromáticos utilizados por grande parte dos artistas parecem ter se originado através de análises de uroscopia medievais, como forma de diagnóstico[9]. Atualmente, os círculos (ou discos) cromáticos representam sistemas de cores onde geralmente as cores primárias, secundárias, terciárias e até quaternárias (ou intermediárias) estão representadas, de forma a mostrar como elas se relacionam entre si e como podem ser combinadas, de acordo com a sua posição no disco. A maioria privilegia os tons e suas relações entre si e suas misturas, outras podem desdobrá-los em seus tons e saturação. Não existe um modelo padrão único e verdadeiro, pois discos cromáticos podem ser desenvolvidos para atender a diversos tipos de análises cromáticas. Entre suas principais funções estão: distinguir esquematicamente a mistura das cores primárias e derivadas, cores análogas, complementares e as relações de contraste simultâneo e harmonia. No século XV as cores eram estudadas partindo do preto para o branco, através dos amarelos e vermelhos. Para Gage e Pastoureau, uma das tentativas mais radicais para reduzir as percepções iniciais de cor para um simples diagrama foi o círculo de cor do médico inglês Robert Fludd, publicado em 1626 (1631 em Pastoureau), considerado o primeiro círculo cromático impresso. Fludd organiza sete cores em uma sequência aristotélica entre o branco e o preto. O vermelho (rubeus) e verde (viridis) são ainda cores vizinhas. No lado do amarelo e do laranja, a luz é majoritária. Do lado do azul, o contrário.

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Círculo de­­­ cor de Robert Fludd. Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Robert_Fludd. Acesso em: 19 set. 2016.

Newton prova cientificamente que a luz é a formadora das cores, que não se enfraquece ao decompor-se ao formá-las. A luz decomposta no espectro pode voltar a ser luz branca, como provou Newton em seus experimentos. Segundo Pastoureau: “A partir de então, a luz e as cores que contém são identificáveis, reproduzíveis, passíveis de ser controladas e mensuráveis” (PASTOUREAU, 2011, p. 140). Segundo a nova ordem de Newton, o vermelho não ocupa mais a posição central; está agora em um dos extremos. O verde assume lugar entre o amarelo e o azul, confirmando o que os pintores e tintureiros já sabiam. Não há mais lugar para o branco e preto como cores reais, principalmente para o preto. Uma pequena vantagem é vista no branco, por ser a soma de todas as cores do espectro. Eles deixam de serem cores. O disco de Newton ofereceu a maior coerência mostrando as relações entre as cores análogas, sendo prontamente utilizadas pelos pintores. O círculo de Newton foi substituído pelo círculo de Claude Boutet, apresentando três primárias e três secundárias. Em 1720-25, Jakob Christoffel Le Blon desenvolve um processo de impressão baseado nas cores vermelho, azul, amarelo e preto. Efeitos cromáticos (principalmente luz e sombra) eram sugeridos nas gravuras monocromáticas pelos virtuosos gravadores especializados, quando reproduziam pinturas, como as de Rubens. Segundo Pastoureau: “No início do século XVII, na Antuérpia e nos Países Baixos, as pessoas sabem perfeitamente fazer cor em preto e branco” (PASTOUREAU, 2011, p. 119). Entretanto, as imagens em preto e branco não são capazes de assumir aspectos específicos da cor. Por outro lado, a criação de códigos para as cores no universo da gravura e da tipografia foi crucial para o mundo das imagens, através de algumas convenções.A utilização das quatro cores é suficiente para a obtenção de todas as outras sobre o suporte branco do papel. Essa inovação técnica permite uma ampliação das funções artísticas e didáticas, mas, principalmente, confirma a nova hierarquia das cores: a hierarquia das cores primárias e complementares. Moses Harris publicou, cerca de 1776, o que provavelmente seja o mais antigo círculo de cores simétricas.

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Moses Harris. Circulo prismático, c. 1776. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Moses_Harris. Acesso em: 19 set. 2016.

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Claude Boutet: Circulo cromático de Traité de La Peinture en mignature, 1708. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://fr.wikipedia.org/wiki/Claude_Boutet. Acesso em: 19 set. 2016.

 

[1] PASTOUREAU, 2011, p. 139.

[2] Reale apresenta nesse volume um panorama sobre a divergência de Galileu com a física aristotélica. REALE, vol. 3, 2004, p. 212-213.

[3] REALE, vol. 3, 2004, p. 234.

[4] REALE, vol. 3, 2004, p. 212-213.

[5] REALE, vol. 3, 2004, p. 212.

[6] REALE, vol. 3, 2004, p. 300

[7] PASTOUREAU, 2011, p. 141.

[8] REALE, vol. 3, 2004, p. 139-141.

[9] GAGE, 1993, p. 9.