Por Marcelo Albuquerque

 

No Egito, segundo Pastoureau, a cor preta simboliza o limo depositado pelas águas férteis do Nilo; águas benéficas que remetem à esperança. Este preto opõe-se ao vermelho, que simboliza a esterilidade do deserto. As divindades relacionadas com a morte são, em sua maioria, pintadas de preto, como Anúbis. O vermelho é a cor que simboliza mais o lado negativo, exceto em situações quando simboliza o sol. É a cor de Seth, o deus assassino de seu irmão Osíris, uma grande força destrutiva. Entretanto, falar das cores nas culturas antigas não significa apresentar uma teoria concreta, pois se reconhece que as teorias da cor se originaram na Grécia antiga através da filosofia.

O mundo clássico não era de mármore branco como vemos nas ruínas e esculturas de mármore. As edificações e obras de arte eram revestidas por uma policromia com pigmentos também escassos e caros. As escavações das civilizações pré-clássicas, como Micenas e Creta, reforçaram a visão de um mundo grego repleto de cores e pigmentos. Segundo Gage[1], por influência das pesquisas de J. I. Hittorff, publicadas em De l’Architecture polychrome chez les grecs, em 1830, muitos arquitetos neoclássicos se voltaram para a policromia em suas obras, como Karl Friedrich Schinkel[2]. O exemplo das melhores cores conhecidas da Antiguidade clássica está em Pompéia, cidade romana destruída pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. São encontrados ricos vermelhos e laranjas nos afrescos, configurando as pinturas mais coloridas que restaram de toda a Antiguidade. Estas pinturas ajudaram a alavancar o Neoclassicismo no séc. XVIII.

800px-1868_Lawrence_Alma-Tadema_-_Phidias_Showing_the_Frieze_of_the_Parthenon_to_his_Friends

Lawrence Alma Tadema. Fídias e o frizo do Parthenon, 1868. Óleo sobre painel, 72×110 cm. Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:1868_Lawrence_Alma-Tadema_-_Phidias_Showing_the_Frieze_of_the_Parthenon_to_his_Friends.jpg. Acesso em 13 jan. 2017

SAMSUNG CAMERA PICTURES

Vila dos Mistérios, Pompeia. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A tríade branco, vermelho e preto será, de acordo com Pastoureau, o grande sistema de cores da Antiguidade Clássica. Gage aponta que essa tríade era também a mais aplicada na África e Ásia.  Isso contribuiu para o desenvolvimento da cor como percepção e cor como linguagem que, através das reduções e simplificações, constituiu vocabulários cromáticos (e simbólicos) específicos. Pastoureau comenta que, historicamente, as cores foram associadas da seguinte forma: branco para aqueles que rezam, vermelho para aqueles que combatem e preto para aqueles que trabalham. Em Roma, a dimensão do preto parece ter perdido a conotação benéfica de fertilidade e fecundidade. A cor da morte é o preto (ou cores escuras), a cor do luto das vestes dos parentes do romano morto. No início do Cristianismo, o preto e o vermelho são as cores do inferno, as cores das trevas e do fogo eterno; cores que representarão o Diabo durante muito tempo. Assim, os adjetivos ater e niger possuem sentidos pejorativos: sujo, triste, lúgubre, malvado, pérfido, cruel, funesto, mortífero.

SAMSUNG CAMERA PICTURES

Casa do Poeta Trágico, Pompeia. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Cientificamente, de forma geral, para Pedrosa, os filósofos da Antiguidade oscilavam entre dois conceitos: o primeiro, dominante, que se referia à cor como propriedade dos corpos; o segundo, que os fenômenos da coloração eram frutos do enfraquecimento da luz branca[3]. Este último conceito permaneceu vivo durante a Idade Média, e mesmo depois de Leonardo e Newton, foi capaz de influenciar Goethe. Os objetos mais valiosos medievais eram feitos com materiais luminosos, como ouro, prata e pedras preciosas, devido às atribuições metafísicas às cores luminosas e a uma especulação desses materiais gerarem sua própria luz. Na Idade Média se encontram diversos sistemas de cores derivados das teorias da Antiguidade e da Cristandade. Segundo Gage:

O amor medieval de sistemas e cores nos deu estes diagramas magníficos, mas que não devem nos levar a supor que as cores eram um símbolo de alguma forma padrão. A correlação de Byrtferth dos quatro humores, as quatro estações, os quatro pontos cardeais, e assim por diante, foi apenas um dos muitos esquemas semelhantes que forneceram uma abundância de cores para cada um dos quatro elementos (GAGE, 1993, p. 87).

O Cristianismo desenvolve costumes relacionados com as cores, como aponta Pastoureau sobre o preto[4]. Diversos animais foram proscritos, por sua cor preta e sua associação com o maligno, tanto por católicos no início do Renascimento como por protestantes. Os corvos são os maiores exemplos, associados ao paganismo por excelência, presente em diversos mitos antigos. O corvo é a ave que trai Noé, a comedora de cadáveres, o preto corrompido. Por outro lado, a pomba traz o ramo de oliveira, o sinal da retirada das águas, o branco da virtude.

800px-Byrthferth_enchiridion

Atribuído a Byrtferth de Ramsey. Quádruplo sistema do Macrocosmo e do Microcosmo, mostrando os elementos terra, fogo, água e ar. C. 1080-90. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://fr.wikipedia.org/wiki/Byrhtferth. Acesso em 13 jan. 2017.

De forma geral, a tríade branco, vermelho e preto é vista de forma ambígua no Cristianismo: o branco é a cor do Cristo, da luz, da pureza, dos anjos e virgens. O vermelho é a cor do sangue do Cristo, dos apóstolos e dos mártires, da Cruz e do Espírito Santo. O preto é a cor da penitência e da Sexta-Feira Santa. Mas o vermelho e preto também são cores do inferno. Na época carolíngia, o preto é adotado pelos monges beneditinos. É também usado como sinal de penitência e aflição pelos religiosos. Nos contos populares essas cores também aparecem. Em Chapeuzinho Vermelho, uma menininha, vestida de vermelho, transporta um objeto branco, e encontra o lobo preto. Em O Corvo e a Raposa, o corvo deixa cair um queijo branco, apoderado pela raposa vermelha. A tríade perderá sua hegemonia com a introdução do sistema de cores da heráldica, no século XII. Quando fica estabelecido o sistema dos sete pecados capitais, no século XIII, cada pecado passa a ser associado a uma cor: orgulho e luxúria com o vermelho, a inveja com o amarelo, a gula com o verde, a preguiça com o branco, a cólera e a avareza com o preto[5].

Angelico,_trittico_del_giudizio_universale,_15

Fra Angelico. O juízo final, c. 1450. Gemäldegalerie, Berlim‎. Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Last_Judgment_by_Fra_Angelico_in_the_Gem%C3%A4ldegalerie,_Berlin. Acesso em 13 jan. 2017.

Segundo Pastoureau, foi na Idade Média que o maior sistema de cores ocidental surgiu: a heráldica. As armaduras medievais tornavam os cavaleiros irreconhecíveis e, pouco a pouco, o hábito de se pintarem e se reconhecerem por símbolos foi sistematizado. A heráldica surgiu, por volta do século XII, por razões militares, para reconhecimento de combatentes e pelos torneios e seus brasões. Sua fase clássica se situa entre 1230 e 1380. Em pouco tempo sua utilização se desmilitarizou, admitindo-se, por volta de 1350, seu uso em toda a esfera cultural, incluindo a classe agrícola. Na heráldica, as cores são uniformes e não existem nuances. O que interessa é o imaginário da cor; a fronteira que separa o emblema do símbolo é fluida. Da heráldica se derivam as bandeiras, os uniformes, os códigos de estrada, emblemas desportivos, etiquetas e logotipos que vemos hoje na atualidade. Esse sistema utiliza um número limitado de cores. Desde sua origem[6], existem seis: branco (prata), amarelo (ouro), vermelho (goles), preto (sable), azul (azur) e verde (sinople). O púrpura (um cinza-violáceo) apareceu no século XIII, mas foi raramente utilizado. O vermelho pode ser de qualquer tom da família dos vermelhos, ou mesmo cor-de-rosa. Trata-se de um vermelho conceitual. Pastoureau escreve, ainda, que: “O mesmo acontece com o azul do rei capeto[7]: pode ser azul celeste ou azul ultramarino, sem nada perder das dimensões heráldicas e simbólicas” (PASTOUREAU, 1997, p. 95). A heráldica também retira da cor preta sua associação com o Diabo. Se o preto fosse uma cor negativa, não estaria presente nos brasões de imperadores e de ricos e poderosos. Com o período barroco, a heráldica ocidental ganha uma sobrevida de dois séculos, e ainda hoje está viva em partes da Europa.

374px-Armorial_Gelre_Flemish_Flag

Armorial de Geire‎. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://fr.wikipedia.org/wiki/Armorial. Acesso em 13 jan. 2017.

[1] GAGE, 1993, p. 11.

[2] A exposição Bunte Götter (Deuses Coloridos), patrocinada pela Gliptoteca de Munique,  itinerou em 2004 por várias capitais da Europa exibindo cópias de peças originais com tentativas de reconstituição da policromia, de forma didática e pedagógica.

[3] PEDROSA, 2010. P. 50.

[4] PASTOUREAU, 2011, p. 36.

[5] Os sete pecados capitais, ou doenças espirituais, foram definidas pelo monge Evágrio Pôntico, no século IV.

[6] GAGE, 1993, 82-91.

[7] Dinastia de reis franco-germânicos, iniciada por Hugo Capeto (938-996).