Por Marcelo Albuquerque

Este texto foi adaptado da minha dissertação de mestrado, intitulada Laboratório de Cor: paradigmas do estudo da cor na contemporaneidade.

 

Israel Pedrosa, em Da cor à cor inexistente, comenta que Eumares de Atenas e Címon de Cleones, na Grécia Clássica, iniciam a época de ascensão dos meios que suscitariam o aparecimento da grande pintura do século V a.C. Polignoto libera a pintura do frontalismo e da posição do perfil, mostrando as figuras em três-quartos e de frente. As sombras de Apolodoro iniciam o estudo da modelagem em pintura, dos volumes e do claro-escuro. A técnica da encáustica, descoberta por Pausias, possibilitaria a precisão de nuances que valorizaria as cores. Segundo Gage, os mais antigos escritos sobre cores remontam ao poeta Alcmaeon de Croton (séc. V a.C.), a partir da antítese entre branco e preto, ou luzes e sombras. Essa antítese será a base das teorias de Empédocles e Demócrito[1]. Empédocles usou a analogia das misturas de cores dos pintores para ilustrar a harmonia entre os quatro elementos ar, fogo, terra e água. Demócrito falou de quatro cores simples: branco, que tem a função de clarear e suavizar; preto, com a função de escurecer; vermelho, relacionado com o calor e o chloron (verde pálido), composto do sólido e do vazio. As outras cores são derivadas destes por misturas. Ouro e cobre derivam do branco com vermelho; violeta derivava do preto, branco e vermelho; índigo, uma mistura de um preto profundo com um pouco de chloron. Segundo Gage (tradução):

(…) Demócrito também afirmou que chloron pode ser produzido a partir de uma mistura de vermelho e branco, o que levou um comentarista a supor que ele estava pensando na complementaridade da pós-imagem de uma mancha vermelha sobre um fundo branco (GAGE, 1993, p. 12).

As teorias de Empédocles e Demócrito foram trabalhadas por Platão e Aristóteles no século IV a.C., e foram o ponto de partida das demais teorias da cor até Newton. Entre as ideias se situa a noção de pharmakon, entendida como remédio, droga e prazer, como já apontamos anteriormente. Platão, no Timeu, ofereceu sua teoria das cores. As cores são descritas como uma chama que emana de todos os corpos, cujas partículas têm a mesma dimensão que as do raio de visão de modo a produzir a sensação. As partículas que vem de outros corpos e chocam com o raio de visão são por vezes menores, por vezes maiores e por outras tem a mesma dimensão que as do raio de visão. As que são do mesmo tamanho são insensíveis, “transparentes”; as maiores, que associam o raio de visão, e os menores, que a dissociam, são irmãs das que parecem quentes e frias à carne e amargas à língua; chamadas “acres” porque aquecem. Quanto ao branco e ao preto, são geradas noutro órgão: o “branco” é o que dilata o raio visual e o “preto” é o que faz o contrário. Quando se trata de um movimento mais forte e de um outro gênero de fogo que chocam com o raio de visão e o dissociam até aos olhos, irrompendo com violência pelas entradas dos olhos, dissolvendo-as, produzem essa torrente de água e fogo chamada “lágrimas”. Quando este movimento, que é próprio fogo, se encontra com o fogo que vem no sentido oposto, gera-se todo o tipo de cores; a “ofuscação”, o “brilhante” e o “resplandecente”. Quando o gênero de fogo intermediário entre estes dois chega à parte úmida dos olhos e se mistura com ela, produz-se uma cor sanguínea “encarnado”. Misturando o encarnado com o brilhante e o branco, gera-se o amarelo[2]. Platão associou a intrínseca beleza das cores simples a formas geométricas, como um antecessor do que viria a ser uma das principais teorias de Wassily Kandinsky no século XX; porém o filósofo não deixou bem claro como essas relações se davam especificamente. Lichtenstein acrescenta que o vermelho, cor intermediária, nem branca nem preta, nem transparente nem brilhante, seria uma cor “demoníaca” no sentido de “demônio” atribuído por Platão em O banquete; a cor que ocupa o meio e preenche o intervalo, que junta todas as partes do todo[3].

A interação dos quatro elementos em Aristóteles é feita da seguinte forma: o fogo luminoso (fogo), a matéria dos objetos (terra); os humores do olho (água) e o modular do meio ótico (ar). Aristóteles explica que a cor vem da luz, que se atenuou ou obscureceu-se ao atravessar diferentes objetos ou meios. Por isso, suas cores estão sobre um eixo que vai dos extremos branco e preto, com as demais cores no meio. Porém, as cores não se organizam na ordem do espectro de Newton; seguem uma outra organização. Essa ordem estará presente até o Renascimento: branco, amarelo, vermelho, verde, azul e preto (o violeta é também acrescido entre o azul e o preto, de maneira a formar misticamente sete cores). Entretanto, Aristóteles, em Da sensação e do sensível (350 a.C.), definiu que as cores intermediárias surgem da mistura entre a escuridão e a luz. Ele identificou cinco cores intermediárias como: carmesim, violeta, verde, azul escuro (ou profundo) ou qualquer cinza (podendo ser este último variações do preto) ou amarelo (relacionado ao branco). De acordo com Gage (tradução):

Em seu relato do arco-íris, no entanto (Meteorologia 372a), ele parecia considerar vermelho, verde e roxo como as únicas cores não misturadas intermediárias. Verde aparece em outro lugar para ser a cor intermediária entre as terras (preto) e água (branco) (Em Plantas 827b; compare Problemas XXXI, 959a). Vermelho era a mais próxima à luz e violeta ao escuro (Meteorologia 374b-375A) (GAGE, 1993, p. 13).

Ele parecia estar inclinado em definir uma escala de sete cores do branco ao preto em proximidade às oitavas musicais, em um método generativo por relações numéricas. Também fez analogias com os sabores ácidos e doces. Segundo suas palavras (tradução):

Sabores e cores, como será observado, respectivamente, contêm o mesmo número de espécies. Pois existem sete espécies de cada um, se, como é razoável, nós consideramos cinza como uma variedade de preto (para a alternativa é que amarelo deve ser classificada como branco, assim como rico com doce), enquanto as cores irredutíveis carmesim, violeta, verde-pálido e azul profundo venha entre brancos e negros, e destes outros todas as cores são obtidas por mistura (ARISTÓTELES, 1994, p. 10).

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Giovanni Battista Tiepolo. Alexandre e Campaspe no estúdio de Apeles, c. 1736-37. Óleo sobre tela, 54 x 74 cm. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://it.wikipedia.org/wiki/Apelle. Acesso em: 23 out. 2016.

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Delaroche. Detalhe de O hemiciclo da École des Beuax-Arts de Paris (Glória ajoelhada diante de Ictino, Fídias e Apeles). Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/Paul_Delaroche?uselang=it. Acesso em 30 jun. 2016.

Plínio, o Velho, morto na erupção do Vesúvio, descreveu um número de vermelhos e azuis para alcançar efeitos magníficos brilhantes de violeta. Sua discussão sobre a arte na História Natural nasce de um debate sobre os materiais da natureza. Ele chamou a atenção para artistas gregos do séc. IV como Parrásio, Apolodoro e Zêuxis. Ele deixou a mais importante recordação do que seria o reflexo da teoria em pintura: as quatro cores da paleta estão confinadas no preto, branco, vermelho e amarelo, que foi atribuída ao pintor Apeles e seu contemporâneos no século V a.C. Ele mencionou que a escolha de cores provinha mais do cliente do que do artista, devido aos custos altos dos pigmentos quanto do próprio gosto do cliente. Em Pompéia, de Acordo com Gage, foram identificados vinte e nove diferentes pigmentos, incluindo dez vermelhos, enquanto em Boscotrecase, situado aos pés do Vesúvio, há a presença de apenas cinco pigmentos, incrementados pelas misturas. As cores básicas de Apeles eram o branco de Milos, o amarelo da Ática, o vermelho de Sinope e o preto chamado atramentum.

Casa de Casca Longus, em Pompeia: detalhes das pinturas parietais do átrio no terceiro estilo, com cenas teatrais. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A supressão do azul pode ser explicada como uma tradução dessa cor como um tipo de pigmento preto, conforme o entendimento grego de semelhança entre o preto e o azul. O azul comum desde os tempos micênicos ao helenístico era o azul egípcio, um azul claro, chamado de kuanos em grego e caeruleum em latim (o nome moderno é azul cerúleo). É possível que Plínio houvesse distinguido várias fases na carreira de Apeles, principalmente no uso de cores austeri (que ele defendia) e cores floridi, relacionadas às questões ocidentais e orientais, descritas anteriormente (ver A tradição do debate entre o desenho e a cor na pintura antiga). Mas, segundo Gage indica: “No entanto, este pode ter sido, parece claro que Plínio estava preparado para sacrificar a consistência histórica, a fim de promover um ideal romano de austeritas” [4]. Essas cores básicas eram atreladas não só à ideia dos quatro elementos, mas também à doutrina dos quatro humores de Hipócrates. A escola médica de Hipócrates associava as cores da seguinte forma: vermelho ao sangue, fleuma ao branco, amarelo e preto à bile, que em perfeita harmonia (kresios) criam um organismo balanceado.

Na República, Platão endossa a convenção clássica do violeta ou púrpura como a cor mais bela, da mesma forma que Aristóteles em sua discussão de cores e música. A púrpura, cor imperial romana, também era a cor mais cara, obtida através de diversos moluscos desde o século V a.C. A púrpura é descrita desde o período micênico, nos poemas de Homero, nas manufaturas fenícias e nas vestimentas de Alexandre o Grande[5]. Mas será com os romanos que a púrpura adquire conotação religiosa e objeto de culto; a cor da nobreza. Um general, em triunfo, poderia usar um robe púrpura com dourado. Cícero, e mais tarde escritores dos tempos de Diocleciano, comentaram a púrpura como a cor dos imperadores. Quem usasse ou falsificasse a cor poderia sofrer pesadas penas, principalmente no Império Bizantino. Isso evidencia um número grande de corantes disponíveis e falsificações, forçando o Estado a estabelecer a cor autêntica e as procedências oficiais. Provavelmente, como afirma Gage, o traje mais valioso em púrpura seja o robe de Teodora em Ravena[6].

Plotino foi o mais importante pensador a discutir as teorias da luz e teorias cromáticas da Antiguidade. Sensível à manifestação subjetiva das cores, era um filósofo religioso, inclinado a explorar a natureza da alma e os modos de unificação com o Supremo. Ele compartilha a teoria clássica criada por Empédocles, da chama interna, do raio de luz que sai pelos olhos para enxergar o mundo. Aristóteles questiona essa teoria em Da sensação e do sensível:

Se o órgão visual competente é composto de fogo, que é a doutrina de Empédocles, uma doutrina ensinada também no Timeu, e se a visão é o resultado da luz emitida a partir do olho como uma lanterna, não deve ter o olho o poder de ver mesmo no escuro? (ARISTÓTELES, 1994, p. 2)

A definição de Empédocles sobre os quatro elementos fogo, terra, água e ar é importante para o estudo da cor, pois as cores seriam classificadas de acordo com essa definição. Segundo Giovanni Reale, os quatro elementos seriam as raízes de todas as coisas, eternamente iguais e indestrutíveis[7]. O Supremo foi descrito como a luz e especificamente o Sol. Para Gage, os fenômenos da cor discutidos na Idade Média provêm do legado de Plotino sobre o assunto. A estética de Plotino foi transmitida pelo Hexaemaron de São Basil[8].

Muito tempo depois, o preto perderia o status como cor entre o final da Idade Média e o século XVII. Com o aparecimento da imagem gravada e da imprensa, a posição do preto e branco ganhou destaque. Em seguida, a Reforma Protestante e as descobertas de Newton retiram o preto novamente do mundo das cores. Quando Newton descobre o espectro das cores, uma nova ordem se forma, sem lugar para o branco e o preto como cor.

 

[1] Os filósofos pré-socráticos são conhecidos por se concentrarem nos fenômenos da natureza.

[2] PLATÃO, 2011, p.166-168.

[3] LICHTENSTEIN, 1994, p. 59.

[4] “However this may have been, it seems clear that Pliny was prepared to sacrifice historical consistency in order to promote a Roman ideal of austeritas” (GAGE, 1993, p. 30).

[5] GAGE, 1993, p. 25.

[6] GAGE, 1993, p. 25.

[7] REALE; ANTISERI, 2003, vol. 1, p. 40.

[8] GAGE, 1993, p. 27.