Por Marcelo Albuquerque

A arte tumular romana deve muito às tradições etruscas e helenísticas, principalmente. Dos etruscos, os romanos herdaram a tradição de retratar os esposos reclinados sobre o triclínio, como vemos no Túmulo dos Esposos, na Villa Giulia (ver Terracota etrusca e Museu de Villa Giulia). O costume de enterrar os mortos, em especial os mortos mais abastados, cujos sarcófagos foram preservados, envolvia um ritual com uso de caixões e sarcófagos que podiam receber ricos relevos escultóricos. Durante o período republicano até o início do Império, a forma mais popular de enterro foi a cremação e depósito das cinzas em urnas, porém existem poucos exemplos de sarcófagos requintados desse período, como o sarcófago de Lucio Cornelio Scipione Barbato, pertencente ao Museu Pio-Clementino no Vaticano, com feições austeras e helênicas.

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Sarcófago de Lucio Cornelio Scipione Barbato, pertencente ao Museu Pio-Clementino no Vaticano. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://it.wikipedia.org/wiki/Lucio_Cornelio_Scipione_Barbato. Acesso em: 17 set. 2016.

Durante o império, a forma suntuosa de sarcófagos possuía painéis adornados como baixos-relevos e elementos iconográficos e ornamentais, como guirlandas e bucrânios (esculturas e relevos de crânios de bois descarnados, relacionados aos sacrifícios desses animais). Durante os governos de Trajano e Adriano, o enterro dos mortos passa a ser cada vez mais frequente devido o contato com o Mediterrâneo Oriental e Ásia Menor, regiões que possuíam uma série de crenças religiosas pagãs que pregavam a imortalidade da alma vinculada ao cuidado e preservação do corpo visando o renascimento em uma vida futura[1]. Os sarcófagos latinos possuem um lado longo e os dois curtos, enquanto os gregos e orientais costumavam ser decorados nos quatro lados. No Oriente, os sarcófagos eram instalados no centro da câmara mortuária, enquanto em Roma podiam se alinhar ao longo das paredes de uma sala. Entre os temas mais populares de relevos durante o período imperial estavam os dedicados à Dionísio, ou Baco. Nos tempos do imperador Cômodo, os sarcófagos alcançaram requintes plásticos complexos e, posteriormente, incorporam temas de caças, virilidade militar e qualidades filosóficas de seus representados falecidos. O Cristianismo desenvolve uma iconografia própria, com sarcófagos decorados com temas judaico-cristãos, como as populares figuras do Bom Pastor e cenas do Antigo e Novo Testamentos. A imagem de Cristo, nesse período, representa Jesus jovem, adolescente e puro, como no emblemático sarcófago de Junius Basso (ver Arte Paleocristã: catacumbas).

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Sarcófago de Junius Basso. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Sarcophagus_of_Junius_Bassus. Acesso em: 17 set. 2016.

O Monumento Funerário kline, do século I, nos Museus das Termas de Diocleciano, retrata um homem deitado em um triclínio, segundo tradições etruscas, vestido de toga, acompanhado de um busto de sua esposa, um tipo de meta-escultura, ou seja, uma representação escultórica de outra escultura. Kline significa uma cama de casal quadrada com bronze, coberta com tecidos e almofadas. Esse tipo de representação funerária será mais comum na época imperial.

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Monumento funerário kline. Mármore di Luni. Século I. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Monumento funerário kline (detalhe). Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Túmulos em exposição no Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Dioniso era tradicionalmente representado na forma de um jovem sem barbas, longa cabeleira, alegre e festivo. O deus era frequentemente retratado com os seus seguidores na cerâmica grega, especialmente nas crateras e kylix para vinho. Carregava em uma das mãos um cacho de uvas ou uma taça, e na outra um dardo ornamentado de folhagens e fitas. Podia ter o corpo coberto com um manto de pele de leão ou de leopardo, conduzindo uma carruagem puxada por leões. Também pode ser representado embriagado sentado sobre um tonel de vinho, com uma taça na mão a transbordar de vinho.

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Dionísio. Era Adriana (117-138 d.C.). Atribuído a Praxíteles em 350 a.C. Galeria Borghese. Mármore di Luni. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Os relevos escultóricos normalmente o mostram na companhia de outros personagens que desfrutam do fruto da videira. Sileno, seu professor sempre presente, conhecido pelo consumo de vinho, lhe transmitiu o plantio da vinha e a fabricação do vinho, figurando nos hinos órficos[2]. No mundo pastoral dionisíaco helenístico figuram criaturas semi-divinas do universo rural, como o deus Pan, sátiros, centauros, ninfas e ménades (mulheres humanas entorpecidas e por vezes violentas, como na tragédia de Eurípedes, As Bacantes) que acompanham o deus, bebendo vinho, tocando flautas e tomando parte em danças e investidas amorosas. Durante o período helenístico, as grandes esculturas de Dionísio se tornaram comuns, apresentando-o como um jovem de feições andróginas, e entre os mais famosos exemplares de esculturas romanas incluem o Fauno Barberini e o Hermafrodita Dormido.

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Sarcófago com representação de Dionísio revelando Ariadne com cenas dionisíacas, da Via Appia. Século II. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Detalhe do sarcófago com representação de Dionísio revelando Ariadne com cenas dionisíacas, da Via Appia. Século II. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Sarcófago com Dionísio, Ariadne e centauros em procissão cerimonial e banquete. Século II, Roma. Mármore de Luni. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Detalhe do sarcófago com Dionísio, Ariadne e centauros em procissão cerimonial e banquete. Século II, Roma. Mármore de Luni. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Detalhe do sarcófago com Dionísio, Ariadne e centauros em procissão cerimonial e banquete. Século II, Roma. Mármore de Luni. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Sarcófago romano no Museu Pio-Clementino, Vaticano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A comitiva de Dionísio (e sua iconografia) persistirá nas obras de gênios do período barroco ao neoclássico. Na Galeria Borghese, em Roma, o Salão do Sileno é assim chamado em memória do grupo com Sileno e Dionísio (Baco) como uma criança, agora no Museu do Louvre, decorrente da venda da coleção para Napoleão em 1807. A escultura foi substituída pelo Sátiro Dançante, arte romana restaurada por Bertel Thorvaldsen (1770-1844), ícone da escultura neoclássica, que restaurou as cascavéis e acrescentou instrumentos musicais semelhantes a pratos.

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Escultura de Sileno. Mármore branco. Séculos I-II d.C. Proveniente das Termas de Caracala. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Arte romana imperial, com restauração de Bertel Thorvaldsen: Sátiro dançante com pratos e cobrasoriginalmente com dupla flauta na boca. Atribuído à maneira de Lisipo. Mármore Pentélico. Século II. Galeria Borghese. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Arte romana imperial, com restauração de Bertel Thorvaldsen: Sátiro dançante com pratos e cobras originalmente com dupla flauta na boca (detalhe). Atribuído à maneira de Lisipo. Mármore Pentélico. Século II. Galeria Borghese. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Hermafrodita dormindo. Após 1796, por Andrea Bergondi (restauração). Baseado no original de bronze de Policle de 150 a.C. Mármore di Paro. Galeria Borghese. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A decoração do teto e o projeto arquitetônico das paredes datam de 1775 a 1778. Tommaso Maria Conca (1734-1822) é o autor da grande tela central, representando o sacrifício de Sileno, e as duas pinturas laterais representam Sileno, Baco e o Rei Midas. As figuras das bacantes, sátiros e silenos são distribuídas em quadraturas arquitetônicas elaboradas por Giovan Battista Marchetti (1730-1800). No mesmo ambiente encontram-se, além de peças de esculturas da Roma antiga, seis das doze pinturas de Caravaggio (1571-1610), originalmente de propriedade do Cardeal Borghese, como o Jovem com uma cesta de frutas, o autoretrato como Baco, São Jerônimo, São João Batista e Davi com a Cabeça de Golias.

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Sala do Sileno. Pinturas de Dionísio e seu séquito no teto, que parecem zombar dos visitantes. Por Giovanni Battista Marchetti e Tommaso Conca. Galeria Borghese. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Sala do Sileno. Pinturas de Dionísio e seu séquito no teto, que parecem zombar dos visitantes. Por Giovanni Battista Marchetti e Tommaso Conca. Galeria Borghese. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Sala do Sileno. Pinturas de Dionísio e seu séquito no teto, que parecem zombar dos visitantes. Por Giovanni Battista Marchetti e Tommaso Conca. Galeria Borghese. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Sala do Sileno. Pinturas de Dionísio e seu séquito no teto, que parecem zombar dos visitantes. Por Giovanni Battista Marchetti e Tommaso Conca. Galeria Borghese. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Caravaggio: Jovem com cesto de frutas, 1593-1595. Óleo sobre tela, 70×67 cm. Davi com a cabeça de Golias, 1609-1610. Óleo sobre tela, 125×101 cm. Galeria Borghese. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Coleção de lápides funerárias do Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 Estela funerária de Aurelius Martinus, oficial do equites singulares Augusti, cavalaria de segurança pessoal do imperador. Proveniente da Villa Farnesina. À direita, estela funerária de Lucius Septímius Valerinus, guarda pretoriano, portando roupas militares, a lança pilum e a espada curta gladium spanica. Século III. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

Urna funerária do período imperial de T. Claudius Chryseros, Iulia Theonoes e Claudia Dorcas. Destaque para as figuras com chifres enroscados de Jupiter Ammon, uma manifestação de Jupiter de origem egípcia, e guirlandas com frutos. Ao centro, abaixo das inscrições, a loba que amamenta os gêmeos. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 Urna funerária do período imperial de C. Iulius Hermes, feita por Iulius Andronicus. Urna decorada com motivos arquitetônicos de ordem jônica, pórtico e guirlanda, com cena de marido e mulher. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Sarcófago de Faustina. Fragmento com máscaras teatrais e símbolos judeus, como a Menorá, o Shofar e Lulav, e o termo Shalom. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Altar de urna funerária de Caius Iulius Saccularis. O personagem porta uma capa curta, dentro de um nicho, com uma borboleta e um pavão nas mãos. O cachorro, o macaco e os cupidos com asas de borboleta aludem ao tema da fragilidade da vida. Século I. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Detalhe do altar de Caius Iulius Saccularis e cupidos com asas de borboleta. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Em 313, com a ascensão de Constantino ao trono de imperador romano, a liberdade de culto aos cristãos é concedida. Nesse período, marca-se o fim da arte catacumbária, pois o cristianismo, com seus templos e cemitérios, passa a ser permitido oficialmente. Em 326 ocorre a oficialização imperial do Cristianismo, com o Édito de Milão, declarando a liberdade religiosa e de culto dentro das fronteiras do Império Romano. Teodósio II, em 380, institucionaliza o Cristianismo como religião oficial e dá início à perseguição aos pagãos, e em 395 divide o Império em duas capitais: Roma e Constantinopla.

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Lápide de Priscus, com representação Paleocristã com Chi-Ro (monograma de Cristo de Constantino), um personagem em prece e uma pomba com um ramo de oliveira. Século IV. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Arte funerária cristã primitiva das catacumbas romanas representando Noé e a Arca. Representações do peixe e do semeador. Século II. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Estela de Licinia Amias, com a inscrição “peixe da vida”, com desenho de dois peixes e uma âncora (iconografia cristã da esperança), século III, Roma. Arte funerária cristã primitiva. Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

[1] A Igreja Católica sempre encorajou o costume cristão de sepultar os corpos dos fiéis, com ritos adequados e, quando ameaçada em tempos passados por opositores e desafiadores dos dogmas cristãos, advertia os fiéis sobre as duras penas aos que não praticassem esse ato. Entretanto, a Igreja aceita que a incineração dos corpos não atinge a alma e não impede que Deus restitua o corpo no Juízo Final (segundo Denzinger-Hünermann). De fato, a cremação pode ser vista com boas intenções, como ordem e higiene pública.

[2] As origens da dualidade humana entre corpo e alma remetem, segundo Giovanni Reale, na História da Filosofia, ao Orfismo da Grécia pré-socrática (REALE; ANTISERI, 2003, p. 79). O Orfismo é a crença de que a alma, imortal, é aprisionada no corpo pela culpa original. As sucessivas reencarnações têm a finalidade de expiar essa culpa, até que se cesse o ciclo de reencarnações. Apenas os iniciados serão recompensados, através da gnose.