Por Marcelo Albuquerque

Aqui pretendo traçar linhas gerais sobre a concepção de uma cidade romana criada praticamente do zero, a partir de assentamentos militares e com fins coloniais. A cidade de Roma não se enquadraria nesse contexto, por ter se formado em um período distante e com circunstâncias diferentes, como apresentado em Origens Míticas e Históricas. O desenho urbano[1] romano ainda se apresenta em muitas cidades europeias e do Mediterrâneo, como no norte da África e no Oriente Médio, preservando os desenhos originais e centros mais antigos. Como aponta Mumford, em A cidade na história, os romanos, segundo Varrão, realizavam ritos etruscos ao fundar novas cidades. Não começavam simplesmente com um augúrio, mas também com a demarcação dos contornos da cidade por um sacerdote que guiava a charrua. Dessa prática surgiu o pomerium, um cinturão sagrado dentro e fora da muralha, onde nenhum edifício podia ser edificado, representando os limites sagrados[2] (ver Palatino).

Os romanos privilegiavam uma cidade planejada ortogonalmente conectada pelas estradas pavimentadas, abastecida por aquedutos e rede de esgotos[3]. As novas cidades eram planejadas como novas colônias, carecendo de fortificação e um bom sistema de defesa. As cidades, exceto Roma, possuem seu espaço dividido em quadrângulos regulares, baseados nos acampamentos militares chamados castrum (ver Castrum), cujo centro era denominado fórum. Dessa forma, o castrum era dividido em quatro partes, chamados distritos. Algumas cidades possuíam áreas sagradas elevadas, as acrópoles, segundo tradições itálicas e helenísticas. O esquema mais organizado era o baseado em dois eixos principais: o cardo maximus (norte-sul) e o decumanus maximus (leste-oeste), cuja interseção se encontravam os fóruns. Entretanto, algumas cidades, como Pompeia, possuíam dois ou mais fóruns secundários. A forma da cidade geralmente correspondia a um quadrado, mas poderia ser em um polígono desigual, como a cidade de Silchester na Grã-Bretanha[4]. Nos fóruns, como foi visto anteriormente, eram realizadas as principais reuniões políticas, legislativas, judiciais, comerciais e religiosas (ver Fórum Romano).

Mumford, em A cidade na história, aponta algumas características das cidades romanas. Hígeno, arquiteto romano, considerava o tamanho ideal de uma cidade romana planejada em 730 por 490 m., como Turim e Aosta, principalmente devido às estratégias de defesa e fortificação[5]. As cidades parecem ter sido planejadas para, no máximo, 50.000 habitantes. Podiam haver legislações sobre o tráfego intenso de carroças, com leis que proibiam o trânsito de dia, conforme decreto de Júlio César, banindo o tráfego de rodas durante o dia em Roma, causando um problema maior: o tráfego a noite, perturbando o sono dos cidadãos romanos. Sobre as cidades romanas, o autor comenta:

Pode-se ainda detectar a marca de Roma em toda uma série de cidades na Itália e noutros lugares: Nápoles, Bolonha, Parma, Placência, Óstia, achavam-se entre as primeiras fundações da República, ao passo que, no século I d.C., Como, Gávia, Verona e Florença se seguiram. Todas essas cidades eram planejadas como unidades, com quarteirões de mais ou menos 75 metros de lado, e com seus espaços abertos e edifícios públicos devidamente situados no começo, em relação às principais artérias. Embora a própria Roma, com suas sete colinas, fosse uma “cidade de acrópole”, formada da união de suas próprias aldeias, cada qual originariamente habitada por uma diferente tribo, é admirável que nas cidades novas, mesmo onde se achavam uma colina relativamente perto, do outro lado do rio, como em Turim, a cidade fosse edificada em um plano perto do rio, para uma circulação livre e um traçado mais regular.

As praças, campos e ruas em arcadas da cidade italiana mais recente foram resultado direto do planejamento romano; e, embora os mercados medievais diferissem funcional e arquitetonicamente do fórum romano, seria tolo pensar neles como uma inovação totalmente independente. Os espaços abertos da cidade, na verdade, não assumiram uma forma radicalmente nova até o século XVII (MUMFORD, 1998, p. 233).

Lucca, na Toscana italiana, é uma cidade que exemplifica a preservação do traçado da Antiguidade romana durante a Idade Média e Renascimento. Em Lucca, conseguimos identificar o traçado retangular do centro histórico romano, com a Piazza San Michele ocupando o antigo fórum. Vemos também os complexos sistemas de muralhas medievais e renascentistas que alteraram seus desenhos após a introdução da artilharia de canhão nas guerras, inutilizando as concepções de muralhas medievais. Como as muralhas atualmente não possuem mais as funções militares de defesa da qual se destinavam, elas se tornaram um agradável e belo passeio de pedestres, bicicletas e jardins públicos.

 lucca grande.gif

Lucca romana. Adaptado do Google Earth. Marcelo Albuquerque, 2017.

SAMSUNG CAMERA PICTURES

Lucca. Muralhas renascentistas. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

SAMSUNG CAMERA PICTURES

Lucca. Muralhas renascentistas. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Lucca. Muralhas renascentistas destinadas atualmente ao lazer dos cidadãos e turistas. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Lucca. Portas das muralhas renascentistas. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

O anfiteatro romano da cidade foi convertido em praça pública, ainda nos tempos medievais, conhecida como Piazza del Anfiteatro. Os edifícios que hoje a ladeiam se erguem sobre as antigas estruturas das arquibancadas (ver Anfiteatros).

como grande.gif

Como romana. Adaptado do Google Earth. Marcelo Albuquerque, 2017.

pompeia grande.gif

Pompeia. Adaptado do Google Earth. Marcelo Albuquerque, 2017.

Em relação aos esgotos, foi visto que a Cloaca Máxima possibilitou a drenagem dos esgotos ao redor do Fórum Romano, tornando um paradigma de funcionalidade até os dias de hoje (ver Fórum Romano). As águas e os dejetos, em outras partes, deviam ser transportadas no braço, e as fezes e urinas eram descartadas nas ruas pelas janelas, correndo-se o risco de se ter um urinol esvaziado sobre as cabeças dos transeuntes. Esse ato era punido com muitas e prisões, conforme aponta Mumford. Cadáveres de homens e animais também eram enterrados em valas comuns ao longo das muralhas, causando graves problemas de epidemias, como ocorria nas Muralhas Sérvias ao longo do Esquilino.

Sobre as cidades da Idade Média, Mumford comenta sobre as transformações da cidade romana para a medieval, demonstrando que as cidades de origem romana, ou foram abandonadas ou recuperadas, além da fundação de novas cidades. O declínio das cidades deveu-se, principalmente, à convulsão social no Ocidente decorrente das invasões bárbaras. Entre as principais transformações encontram-se o abandono pelo cristianismo dos banhos, arenas e teatros. Os antigos edifícios públicos, como as termas e anfiteatros, tornam-se fortalezas, abrigos e pedreiras. Os fóruns se convertem em praças de mercados, junto à adoção dos antigos templos e basílicas como igrejas e catedrais católicas. Foram erguidas igrejas nos arredores das cidades, perto das tumbas de santos, pois os cemitérios ficavam fora das cidades, ao longo das estradas, muitas delas convertidas em pontos de peregrinação.

[1] Não é adequado dizer urbanismo romano, pois o urbanismo, como estendemos hoje, é uma disciplina concebida no século XIX.

[2] MUMFORD, 1998, p. 228.

[3] Os esgotos eram, em geral, cobertos com abóbadas de berço de blocos uniformes, como visto na Cloaca Maxima do Fórum de Roma, o primeiro grande esgoto da época da monarquia (ver Fórum Romano).

[4] As cidades terminadas em “ester”, na Grã-Bretanha, tem origens romanas, como Silchester, Manchester, Chester, Lancaster e Winchester.

[5] MUMFORD, 1998, p. 230.