Por Marcelo Albuquerque

O teatro grego, como estrutura arquitetônica, continua sendo popular na atualidade, estando presente em diversos projetos atuais, de parques a edifícios públicos. O surgimento do teatro grego é atribuído aos ritos de fertilidade e aos cultos a Dionísio, quando o pátio circular da debulha passou a ser o palco das encenações. Os primeiros festivais eram de origem religiosa, onde os sacerdotes ocupavam a primeira fila da orquestra. As peças abordavam temas humanísticos dentro de uma concepção de uma nova ordem social e urbana grega, como o destino, as fatalidades, as injustiças e a justiça, as oportunidades, as desgraças e o livre arbítrio, culminando nas grandes obras de Sófocles, Ésquilo, Eurípedes, Aristófanes e Menandro. Téspis de Ática introduziu o primeiro ator em Icria no século VI a.C. No século V a.C. haviam mais de 1200 peças teatrais. O Teatro de Herodes Ático, bem próximo à Acrópole, recebeu interferências modernas e é utilizado até hoje, assim como outros, em menor escala.

Aristóteles, na Arte Poética, aborda o conceito de catarse no teatro grego, referindo-se à ideia de purgação e purificação da alma através da descarga emocional provocada pelo drama. Aristóteles procura sustentar sua filosofia no consenso geral de diversas opiniões diferentes (consensum gentium et temporum). Ele não visa renovações absolutas, originais e revolucionárias; mas pelo contrário, através da formulação de conceitos que foram progressivamente sendo elaborados pela humanidade[1]. A diferença entre o verdadeiro e o verossímil implica a preferência entre o persuasivo e o reprodutivo: a verossimilhança se torna em Aristóteles aquilo que seria incompatível com o platonismo. Aristóteles diz que nada chega à inteligência se não passar pela imaginação simbólica, que por sua vez forma imagens. A produção poética condensa essa experiência, e se não há uma produção poética não há uma imagem da cultura. Sendo assim, aquilo que não é imaginável não é pensável, possível. Essa dimensão é a do possível e da verossimilhança. A produção poética superior, nesse contexto, através da verossimilhança, é um conciso imaginário da experiência de vida de uma cultura.  A representação deve representar o seu modelo melhorado, a partir não só dos critérios de semelhança como também os da conveniência. A verossimilhança, agindo além das regras e padrões da mimese platônica, prova que os elementos não miméticos constituem uma essência da retórica. Com afirma Jacqueline Lichtenstein, em A Eloquência da Cor, isso depende muito mais do talento do artista, do poeta e do orador do que as condições específicas da representação[2].

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Teatro de Epidauro, Grécia. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Epidaurus. Acesso em: 17 set. 2016.

Os teatros romanos se popularizaram nos tempos da república, em palcos de madeira provisórios e armados a céu aberto. Pompeu foi o primeiro a construir um teatro de pedra em 55 a.C., sendo que o teatro levou seu nome (Teatro de Pompeu). Anteriormente, os teatros tinham como característica sua efemeridade, pois podiam ser desmontados e montados em outro sítio. Pompeu constrói o primeiro e maior teatro definitivo no Campo de Marte, em Roma. O complexo abrigava jardins e templos, e parte das ruínas são vistas no Largo di Torre Argentina. Foi o local do assassinato de Júlio César, nos Idos de Março, em 44 a.C., junto aos pórticos helenísticos que ali existiam. O auditório do teatro, no avançar dos tempos medievais, serviu como fundação para edificações, que possuem uma forma curva que acompanha o antigo desenho do auditório, na atual Via Grotta Pinta.

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Modelo do Teatro de Pompeu. Fonte: Wikipedia. https://nl.wikipedia.org/wiki/Romeins_theater_(gebouw). Acesso em: 12 fev. 2017.

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Largo di Torre Argentina. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Largo di Torre Argentina. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Os teatros romanos também possuíam seus desenhos baseados nos teatros gregos, com forma de meio-círculo, aproveitando os declives acentuados dos terrenos. Como aponta Giordani, o teatro romano possuía acessórios mais aperfeiçoados que o teatro grego: existia uma cortina de cena, trajes suntuosos e a machina que permitia fazer descer dos céus os deuses e heróis (deus ex machina)[1]. Os gêneros populares em Roma eram:

– Mimo: peças cômicas e burlescas da vida cotidiana, as vezes de caráter imoral, com críticas sociais e políticas.

– Pantomina: imitação ao estilo do mimo, onde as fisionomias e os gestos substituíam as palavras.

– Atelana: farsas com tipos tradicionais como o avarento, o guloso, o lobo, etc.

Teatro romano
Peças baseadas do teatro grego com assuntos gregos Tragédias e comédias Fabulae Palliatae (os atores vestem o pallium, um manto grego)
Peças baseadas do teatro grego com assuntos romanos Tragédias: fabulae praetextae (os atores vestem a toga pretexta)

Comédias: fabulae togatae (os atores vestem a toga romana)

Fonte: GIORDANE, 2012, p. 273.

Os atores se organizavam em companhias chefiadas por um dominus gregis, um tipo de administrador e ator. Os atores e dançarinos costumavam ser escravos ou libertos, sendo uma profissão infame. Na maioria, os papeis femininos eram representados por homens. A plateia interagia e os tumultos e vaias eram constantes.

Em relação às lutas gladiatórias e venationes (caça às feras), essas costumavam acontecer nos anfiteatros, como o Coliseu. Os gladiadores eram recrutados entre os escravos, condenados e prisioneiros de guerra com maiores aptidões para esse fim, além de atletas voluntários. As escolas de gladiadores profissionais se chamavam ludi gladiatori. O gladiador ferido podia implorar pela vida à multidão, estendendo a mão esquerda sobre o estrado. Os vencedores recebiam honrarias e os escravos podiam receber a liberdade. Sobre as venationes e as naumaquias (batalhas navais), essas serão comentadas com mais profundidade quando chegarmos a comentar sobre o anfiteatro Flaviano, o Coliseu de Roma, que merece atenção especial.

Gladiadores romanos
Samnitas Antiga categoria de gladiadores, pesadamente armados com capacete de visagem, grande escudo retangular, espada reta e curta, armadura no braço direito e na perna esquerda
Reciários Categoria humilde com armamentos precários, que combatiam nus ou quase nus, armados com uma rede, além de um punhal ou um tridente.
Trácios Usavam um pequeno escudo redondo, um elmo, um ferro curvo com sabre, armadura no braço direito e nas pernas.
Gauleses ou mirmilões Adotavam práticas da Gália e estavam armados com capacete, braça e perneiras.
Hoplitas Combatiam com armaduras completas, armados com lanças compridas, essedários (carro gaulês de guerra) conduzidos por um auriga.
Fonte: GIORDANE, 2012, p. 276.

Voltando à arquitetura, a diferença principal será na introdução das grandes arquibancadas de concreto, elevando-as a dezenas de metros do primeiro pavimento, possibilitando a construção em diversas inclinações de terrenos. Já os anfiteatros, como o Coliseu, possuem a forma circular ou oval, como dois teatros romanos espelhados. Os declives acentuados proporcionavam uma excelente acústica. Os teatros cobertos menores eram chamados odeons. Os elementos de um teatro romano, são, principalmente:

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Planta ideal de um teatro romano. Adaptado da Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Roman_theatre_(structure)?uselang=it. Acesso em: 12 fev. 2017.

 

– Orquestra: constitui-se na área semicircular em frente ao cenário, onde o coro cujo centro era erguido um altar a Dionísio nos tempos gregos antigos.

Pulpitum: a plataforma elevada em que os atores atuavam.

Proscenium: onde os atores atuavam, podendo se prolongar para a orquestra.

 – Cenário: composto por monumentais fachadas arquitetônicas, atrás do proscenium, muitas vezes com vários andares de altura.

– Boca de cena: parede do palco em geral adornada com nichos.

Cavea: como arquibancadas, podiam ser concebidas de madeira e de pedra. Como se vê no Coliseu, podiam receber finos revestimentos nas áreas mais nobres galeria semicircular, onde fileiras de assentos para os espectadores. Foi dividido em ima cavea (linhas inferiores, o melhor lugar do teatro), cavea mídia (a parte do meio) e summa cavea (arquibancadas superiores).

Aditus: entradas para as laterais do teatro, a partir da orquestra. Maximus aditus eram duas entradas monumentais que conectavam ambos os lados do teatro para a orquestra.

Vomitoria: acesso abobadado para fluxo de pessoas. O termo  vomitorium também se aplica ao fluxo eficiente de saída dos espectadores em tempo curto.

– Velarium: vela (similar às dos navios) sobre a cavea que a cobria e a descobria, de forma a proteger os espectadores das intempéries (ver Coliseu).

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O teatro romano de Mérida, c. 15 a.C., pelo cônsul Marco Vipsanio Agripa. Fonte: Wikipedia. Disponível em: https://it.wikipedia.org/wiki/Teatro_latino. Acesso em: 12 fev. 2017.

 

O Teatro de Marcelo foi iniciado por Júlio César e foi terminado por Augusto, sendo concebido em homenagem ao filho de Otávia, Marcelo. Em 20 a.C. Augusto passaria o império para o sobrinho Marcelo, mas este morreu jovem, antes de Augusto. O Teatro de Marcelo influenciou a construção e a estética do Coliseu. Sobre o Coliseu, este será visto com mais detalhes na Dinastia Flaviana. Sua estrutura e acabamento contempla tanto o concreto como o mármore travertino, devido à atenção especial dada à Augusto pelo edifício. Suas colunas externas não têm função estrutural. O primeiro nível é da ordem dórica, o segundo é jônico. O terceiro se perdeu, e provavelmente seria de ordem coríntia. O edifício se localiza em frente ao templo de Apolo Sosiano, na entrada do Gueto Judeu, tradicional bairro romano.

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Teatro de Marcelo, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Durante a Idade Média, o teatro sofreu danos com terremotos, depredações e serviu de pedreira, assim como o Coliseu. O edifício foi ocupado como fortaleza, devido ao abandono das funções artísticas e cenográficas pagãs nos primeiros séculos do Cristianismo e das invasões bárbaras. Caminhando para o Renascimento, foi ocupado com residências e palácios.  Seu primeiro nível conservou mercados, porém as lojas foram removidas no final do século XIX, sendo ainda hoje ocupado com apartamentos nos pavimentos superiores.

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Éttiene Dupérac: gravura que representa o Teatro de Marcelo com mercados no primeiro nível. Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Peracvestigi157539.jpg. Acesso em: 12 ago. 2016.

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Teatro de Marcelo, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Teatro de Marcelo, Roma. Detalhe da fachada com contraste entre as estruturas antigas e medievais-renascentistas. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Teatro de Marcelo e o pórtico e podium do templo de Apolo, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Corredores internos do Teatro de Marcelo, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Estruturas antigas e modernas compondo a fachada do Teatro de Marcelo, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Teatro de Marcelo, ao centro. Ao sul, o Fórum Boário. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://fr.wikipedia.org/wiki/Th%C3%A9%C3%A2tre_de_Marcellus. Acesso em: 17 set. 2016.

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Teatro de Marcelo atualmente, utilizando a ferramenta 3D do Google Earth. Fonte: Google Earth, 2017.

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Na antiga Gália, se destaca o grande teatro romano de Orange, dos tempos de Júlio César. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro_Antigo_de_Orange. Acesso em: 17 set. 2016.

Em Florença encontra-se um bom exemplo do destino sofrido pelo teatro e pelo anfiteatro da antiga cidade romana nos tempos medievais. O Palazzo Vecchio, localizado na Piazza della Signoria, é a sede do município da cidade e um dos maiores monumentos da Itália. Representa a arquitetura civil gótica dos palácios públicos do século XIV. No século XIX foi a sede do Parlamento do Reino da Itália, e atualmente abriga a prefeitura de Florença e um museu. O museu proporciona aos visitantes um passeio pelas salas e quartos, com valiosas obras de arte e arquitetura de nomes como Agnolo Bronzino, Donatello, Ghirlandaio, Giorgio Vasari, Michelangelo, Michelozzo e Verrocchio. A Torre de Arnolfo é um dos símbolos mais importantes da cidade. O edifício foi gradualmente ampliado formando um bloco trapeizodal, sendo a fachada frontal o lado mais curto.

Palazzo Vecchio, Florença. À direita, Terraço de Saturno, na fachada posterior. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Na antiga cidade romana de Florentia (nome de origem etrusca) haviam os antigos teatros e anfiteatros romanos. As ruínas do teatro, com seu auditório semicircular, se converteram nos alicerces do Palazzo Vecchio, e suas estruturas de concreto e mármores podem ser vistas no museu existente no subsolo do edifício, mediante aquisição de ingressos. Entretanto, existem no local muitos vestígios de diferentes épocas desde então.

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Ilustração do antigo teatro e anfiteatro romano em Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Ruínas do teatro romano no subsolo do Palazzo Vecchio, em Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Ruínas do teatro romano no subsolo do Palazzo Vecchio, em Florença. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Durante a Idade Média, a área foi densamente ocupada com casas e outros edifícios, recebendo sua configuração atual no século XIII, quando Florença se destaca como umas das cidades mais importantes da Europa. O atual palácio foi construído sobre as ruínas do Palazzo dei Fanti e do Palazzo da Justiça, sendo chamado em sua época de Palazzo dei Priori, atribuído ao célebre arquiteto gótico Arnolfo di Cambio, que também contribui nos projetos da Basílica de Santa Maria del Fiore e da Basílica de Santa Croce.  O subsolo, onde se situam as ruínas do teatro romano, foi usado como prisão.

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Ilustração do antigo teatro (1) e anfiteatro romano (2) em Florença. Adaptado do Google Earth, 2017.

 

Veja mais:

Anfiteatros

Coliseu

 

[1] GIORDANE, 2012, p. 273.

[1] ARISTÓTELES, 2007, p. 135.

[2] LICHTENSTEIN, 1994, p. 70.