Por Marcelo Albuquerque

Os circos eram os lugares dedicados especialmente às corridas de cavalos, que conduziam bigas e quadrigas, em geral. O nome deriva do latim “círculo”, pois as corridas ocorriam em pistas que possuíam uma curvatura em uma de suas extremidades, sendo a outra reta. A pista era coberta de areia, composta por duas vias retas paralelas, separadas por um alto pódio chamado spina, ligadas por duas curvas acentuadas em 180 graus. Em cada extremidade das curvas, na spina, havia um tipo de coluna chamada “meta” (metae), em torno da qual os corredores teriam que virar. Em geral, a distância entre as metas era de 200 metros, mas podia ser maior nos grandes circos. O circo tinha, na totalidade, a forma de um grande retângulo alongado, sendo que um dos lados mais curtos era arredondado, enquanto o outro era reto. No lado reto haviam as estrebarias, chamadas cárceres, ou seja, os ambientes onde se agrupavam os corredores e os animais antes das largadas. As estruturas dos cárceres eram geralmente monumentais, com torres e salas para diversos usos e fins. Ao redor do perímetro, as arquibancadas se elevavam em grandes estruturas de concreto. O filme Ben-Hur, de 1959, tornou-se célebre por suas imagens icônicas da emocionante e fictícia corrida de quadrigas no circo de Jerusalém.

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Cena de Ben-Hur.  Fonte: Wikipedia. Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Ben-Hur_(pel%C3%ADcula_de_1959). Acesso em: 12 fev. 2017.

Os circos se localizavam próximos aos palácios, nas áreas mais centrais, para que os governantes e sua corte pudessem acessá-lo com conforto e segurança. Os mais famosos circos estavam em Roma, sendo o maior o Circus Massimus, entre o Palatino e o Aventino. Este circo foi utilizado para os jogos e para aclamação do imperador, onde eram realizadas celebrações, festas e execuções públicas.

Circus Massimus é profundamente atrelado à história e aos mitos de Roma, lembrado como o local do lendário Rapto das Sabinas, nos tempos de Rômulo. No passado longínquo era o local das atividades comerciais devido à sua posição estratégica junto ao Tibre, favorecido por sua topografia.  Possuía cerca de 600 metros de comprimento e 200 de largura, sendo a maior estrutura para espetáculos já realizada na história. Nos tempos de César atingiu os 150.000 espectadores, e na época dos Flávios teria atingido os 250.000 espectadores. O rei etrusco Tarquínio Prisco, no século VI a.C., iniciou as construções das estruturas em madeira, sendo gradualmente substituída pelas instalações de alvenaria de pedras a partir do século IV a.C., quando se ergueram os cárceres voltados para a margem do Tibre. Tarquínio Prisco, como recorda Giordani, edificou o circo de Roma e instituiu os jogos romanos (circum Romae aedificavit; ludus Romanos instituit)[1]. Júlio César, em meados do século I a.C, deu a forma final ao circo com alvenarias diversas e concreto romano.

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Modelo do Circus Massimus, Roma.  Fonte: Wikimedia Commons. https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Models_of_Circus_Maximus_(Rome)?uselang=it. Acesso em: 12 fev. 2017.

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Circus Massimus. Fonte: Google Earth. Acesso em: 12 fev. 2017.

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Vista do Circus Massimus sobre o Palatino. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Vista do Circus Massimus sobre o Palatino. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Circus Massimus e o Palatino, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A estrutura foi adornada com um obelisco da época de Ramsés II, trazida do Egito, conhecido como obelisco Flaminio, que no século XVI foi removido para a Piazza del Popolo. Em 357, um segundo obelisco foi trazido para Roma por Constâncio II, que hoje está na Basílica de São João de Latrão. Em 81 d.C. foi construído o segundo Arco de Tito no centro do Cárcere, convertendo-se numa passagem monumental integrada às estruturas. No topo ficava uma quadriga de bronze.

Obelisco Flamínio e Piazza del Popolo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Obelisco de São João de Latrão. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Em relação às corridas, na época imperial os cocheiros pertenciam a facções (factiones) que disputavam os prêmios, havendo a de cor branca (factio albata), verde (factio prasina), vermelha (factio russata) e azul (factio veneta). Os cocheiros (aurigas) profissionais eram de classes inferiores, enquanto os jovens de boa família se apresentavam em provas de caráter militar, como na pyrrhica, um simulacro de combate. Os carros eram leves e o melhor cavalo era atrelado de modo a facilitar a curva fechada das metas. As últimas corridas aconteceram até o século VI. As corridas tinham geralmente sete voltas completas, no sentido anti-horário. As voltas eram contadas e sinalizadas com imagens de ovos e golfinhos, conforme retratado no filme Ben-Hur. Os campões se tornavam celebridades, nos lembrando as estrelas dos esportes atuais.

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Circus Massimus e o local da extremidade curva, na Viale Aventino, onde se vê a pequena Torre Moletta da Idade Média. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Outro circo importante de Roma foi o Circo de Domiciano (ou Estádio), na atual Piazza Navona, cujas ruinas podem ser acessadas pelos subterrâneos da praça.

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Piazza Navona, ocupando o local do antigo Estádio de Domiciano, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Piazza Navona, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Entrada do museu subterrâneo do Estádio de Domiciano, na Piazza Navona, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Em Roma, outra ruina que se destaca é a do Circo de Maxêncio, na Via Appia Antica, onde se vê claramente seu formato e as fundações da spina no centro da pista.  Entre os grandes circos, além dos circos de Roma, estavam os de Alexandria, Catania, Milão, Aquileia e Antioquia.

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Circo de Maxêncio. Fonte: Google Earth. Acesso em: 12 fev. 2017.

O último grande circo a funcionar do mundo romano foi o Circo de Constantinopla, que possuía obras-primas de arte e o enorme obelisco transportado de Karnak, no Egito, ainda hoje presente em Istambul. O circo e o Fórum Imperial foram transformados em outras estruturas e jardins após a tomada de Constantinopla em 1453, pelos turcos otomanos, pondo fim ao milenar Império Bizantino.  Do Fórum de Constantinopla restou o grupo de cavalos romanos que foram transferidos em 1204 para adornar a fachada da Basílica de São Marcos, em Veneza. Entre os fatos históricos mais importantes do Circo de Constantinopla, destaca-se a famosa revolta de Nika, em 512, quando facções rivais entraram em conflito, custando a vida de cerca de 30.000 pessoas, antecedendo a construção da monumental Hagia Sofia por Justiniano.

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Detalhe da portada com as réplicas dos quatro cavalos de Constantinopla, na Basílica de São Marcos, Veneza. Os originais se conservam no Museu da Basílica. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Hipódromo de Constantinopla.  Fonte: Wikipedia. https://de.wikipedia.org/wiki/Hippodrom_(Konstantinopel). Acesso em: 12 fev. 2017.

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Mapa do centro de Constantinopla em 1453.Fonte: Wikipedia. https://de.wikipedia.org/wiki/Hippodrom_(Konstantinopel). Acesso em: 12 fev. 2017.

[1] GIORDANE, 2012, p. 274.