Por Marcelo Albuquerque

Para uma obra intelectual a longo prazo, que considero aqui não apenas o desenvolvimento de textos acadêmicos, mas também o desenvolvimento de trabalhos artísticos e profissionais, farei uma abordagem a partir do livro A Vida intelectual, de A.-D Sertillanges.

Desenha-se ou escreve-se primeiramente para si, como exercício e autoconhecimento. Deve-se praticar o desenho e a escrita todo o dia, nem que seja um pouco. Os projetos mais elaborados são decorrentes dessas pesquisas, inevitavelmente. Para tanto, o caderno de desenhos, ou sketchbook, é fundamental. Com o tempo, modela-se o estilo através da prática e da teoria. Conheça seu ritmo de trabalho e seus melhores horários de concentração e tranquilidade, de forma a trazer à tona o processo criativo e de estudo. Observe tudo, desenhe e anote, permaneça atento. Tudo pode, por mais que pareça banal, servir de base para grandiosos trabalhos. Não confie sempre na sua memória! Para o autor, uma vocação não se satisfaz com leituras soltas e trabalhinhos esparsos. Deve haver penetração e continuidade, empenho metódico com vistas a uma plenitude, e que as causas devem nos apaixonar. Ambição, vaidade e publicidade apenas tentariam os espíritos fúteis.

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Marcelo Albuquerque: Atelier de gravura da EBA-UFMG. Gravura em metal, 2002.

Não existe um jeito melhor ou certo de se aprender desenho. Cada indivíduo deve manter uma cultura de desenho, começando por fundamentos básicos, como linha, luz, sombra, perspectiva, volume, textura, etc. Desenhe todo dia e estude os mestres da história da arte e da arquitetura. Almeje uma cultura erudita para aprender e contemplar. Escreva, desenhe e estude sobre aquilo que seu professor orientou para aquele momento de seus estudos. Mas escreva, estude e desenhe com veemência sobre aquilo que você conhece, ou busca conhecer, baseado na sua realidade direta. A nossa própria realidade não é banal e desinteressante como pensamos que seja. Por mais que pareça indigna de se retratar, elementos aparentemente ocultos podem nos revelar temas grandiosos. Nunca espere surgir um ambiente ideal para começar a produzir, comece desde já com o que tens ao seu redor. Lembre-se que grandes gênios da arte e da literatura começaram por retratar suas próprias realidades, nos remetendo à celebre frase de Liev Tolstoi: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.

É preciso criar uma cultura de gastos que privilegie os bons materiais, cursos e livros. Gastos desperdiçados com ninharias e atividades sociais inúteis, ao tom de Sêneca, em A Brevidade da Vida, seriam melhores empregados na construção de uma biblioteca particular, em uma viagem cultural e na audição de músicas que refresquem o intelecto[1].

Começou? Termine! Procure concluir tudo e concluir bem. Para Sertillanges, é preciso fugir de tudo que é feito pela metade; ou se faz alguma coisa ou não se faz nada: “(…) Se decidiu fazer, que faça fervorosamente, com paixão máxima. O trabalho pela metade é um descanso pela metade”[2]. Qualquer estudo, sem as filosofias, se desorienta[3], se perde, e deve-se ir direto ao essencial.

É importante perceber que não devemos nos afobar em tentar ler tudo, pois jamais conseguiremos isto e o sentimento de frustação ficará permanente. Os estudos, seja da leitura ou do desenho, não podem ser uma forma de tortura. Para alguns, devemos ler pouco mas ler bem. Devemos escolher nossos livros como a dona de casa que escolhe seus alimentos na feira, de acordo com as necessidades do dia. Uma leitura fora de hora e desordenada pode confundir e desorientar. É necessário filtrar e começar pelo necessário e pelos clássicos, ou seja, por aqueles autores cuja autoridade foi consolidada pelo tempo. Segundo Sertillanges, existem leituras fundamentais, leituras ocasionais, leituras de treinamento ou edificantes e leituras relaxantes. Devemos privilegiar a elite dos pensadores e desprezar obras malfeitas e mal pensadas. Diz o autor que o contato com os gênios nos proporciona o benefício imediato da elevação[4]. Entretanto, mesmo as obras indesejadas, por comparação, nos apontam para um bom caminho de oportunidades e progressos.

 

É desejável buscar várias fontes de conhecimento e informação e não desprezar nenhum meio, ou seja, devemos ler livros, ver documentários, filmes, etc. Nunca deixe de ler livros e os grandes autores, mas também devemos aproveitar ao máximo as novas tecnologias midiáticas sem que estas prejudiquem o hábito da leitura.

Existem aqueles que estudam marcando seus livros, fazendo marcações no próprio livro ou em suportes diversos. Alguns consideram um pecado marcar livros, estragando-os. Eu, particularmente, marco meus livros sem medo, desde que sejam aqueles que uso para consultas futuras e que não tenham valor de antiguidade. É uma decisão pessoal. Umberto Eco, em seu pequeno livro Como se faz uma tese, confessa que escreve em todos eles!

A escolha dos temas para o trabalho artístico e acadêmico deve agir de forma sincera com o seu espirito e seus gostos, preferencialmente. Deve-se agir se entregando por inteiro à ação, buscando causas que apaixonem. É preciso saber falar para o interior e para o exterior para formar seu estilo e sua personalidade. Acima de tudo, com verdade, seja de forma simples ou rebuscada, mas que seja íntimo com sua história. Conheça os chavões mas evite-os, ou saiba usá-los com sabedoria. O estilo, de certa forma, é como o corpo que pertence a uma alma[5]. A um grande estilo não pode pertencer uma capa hipócrita de saber, um saber fingido e atitudes pernósticas.

Não se amarre no mito da originalidade. Não há problema em se inspirar (ou imitar) no estilo de personalidades memoráveis, pelo contrário, ou mesmo produzir no estilo de outro, desde que isto não avance para um maneirismo frio, vulgar ou preso a uma moda ou tendência. Lembre-se que Dante se inspirou em Virgílio, e que Virgílio se inspirou em Homero, e este último provavelmente em outros. Histórias e estórias podem ser recontadas ao longo das gerações. Com o tempo, seu estilo emerge, na proporção de sua dedicação.

Trabalhe para você. O processo criativo a ti pertence, e sua voz interior deve falar. Muitas pessoas sentem o mesmo e se sentem sós também. Porém, ao seu lado, os personagens memoráveis estão presentes e mantem um diálogo permanente com a nossa realidade, através de cada leitura ou de cada pintura contemplada. A cultura foi e será construída através de infindáveis gerações. Os grandes gênios sempre mantêm um diálogo com o passado, mesmo que queiram rompê-lo. A solidão, ou estar só, no sentido do retiro, deve ser aceita. Grandes obras foram forjadas no deserto e no isolamento[6]. A solidão proporciona contato consigo próprio. Para Sertillanges, “antes de dar a verdade, adquira-a, e não jogue fora o grão de sua semeadura[7]”. Mas o homem por demais isolado se prejudica, pois sai do real e perde o senso do destino. A solidão recomendada, segundo o autor, é a de elevação.

Da mesma forma, é preciso moderar a vida social, evitando os excessos e os abusos sem que, com isso, nos tornemos isolados ou pedantes. Diz Sertillanges: “(…) Os próprios tolos também nos são úteis e nos ajudam a completar nossa experiência. Não os procurem: deles já há o bastante![8] ”.

Descanse, relaxe e não procrastine!

Referências bibliográficas:

SERTILLANGES, A.-D. A vida intelectual: seus espíritos, suas condições, seus métodos. Tradução de Lilia Ledon da Silva. São Paulo: Prol Editora Gráfica, 2010.

[1] SERTILLANGES, p. 48.

[2] Ibidem, p. 85.

[3] Ibidem, p. 93.

[4] Ibidem, p. 128.

[5] Ibidem, p. 161.

[6] Ibidem, p. 51.

[7] Ibidem, p. 54.

[8] Ibidem, p. 60.