Por Marcelo Albuquerque. Este texto é parte dos cursos e disciplinas ministrados pelo autor.

 

O nanquim é uma das tintas mais populares do planeta. Surgida na China há mais de 4500 anos, a tinta apresenta uma cor negra intensa, extremamente fluida e de rápida absorção por seu suporte mais comum, o papel.

 

O nanquim, na forma tradicional, é feito por basicamente fuligem de carvão ou negro de fumo e goma-laca. A fuligem é o pigmento, enquanto a laca é seu aglutinante. Na China antiga, os primeiros nanquins eram retirados das glândulas de tintas de moluscos como o polvo e a lula, que usam a tinta como forma de defesa. O processo tradicional de fabricação ainda é bastante utilizado nos dias atuais, porém devemos ficar atentos quanto às marcas populares, que acrescentam resinas acrílicas na tinta a fim de obter um maior rendimento, porém desta forma o nanquim fica mais próximo das tintas acrílicas do que propriamente do verdadeiro nanquim. Da mesma forma encontramos também tintas coloridas próximas ao nanquim no mercado. Também não podemos considerar estas tintas como verdadeiros nanquins, pois não existe carvão colorido!

 

A forma mais comum de se obter o nanquim é na forma líquida, mas também o encontramos na forma sólida, destinada aos artistas que preferem produzir manualmente seus próprios materiais, além de ser a forma oficial do Sumie, técnica de grande leveza e precisão de origem chinesa.

 

É uma tinta que possui um poder de adesão muito forte, permanente, difícil de ser retirada após sua aplicação. A tinta, além de penetrar consideravelmente na fibra do papel, possui grande resistência à luz e ao clima. Um bom nanquim, ao receber uma aguada por cima, deve manter-se estável e não diluir-se na mesma aguada.

 

NANQUIM – em sua constituição tradicional
Pigmento Aglutinante
Fuligem de carvão, negro de fumo, antigamente tinta de moluscos. Goma-laca (asa de barata), cola de peixe.

Denominação das tintas e seus aglutinantes. Fonte: Colnago, 2003.

 

Penas artesanais: As penas artesanais são os instrumentos mais antigos que foram utilizados pelo homem na escrita e na arte. Podem ser feitos de madeira, como o bambu, e penas de aves, como o ganso. São excelentes para artistas que gostam de experimentações e não aconselhadas para trabalhos muito precisos.

 

Penas de ganso. Foto: Marcelo Albuquerque, 2008.

 

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Bambus. Foto: Marcelo Albuquerque, 2008.

 

Para confeccionar uma pena de bambu caseira, selecione um pedaço de bambu firme e resistente entre dois nós e corte uma das extremidades antes do nó, cortando a segunda após o nó (1). Em seguida, faça um corte chanfrado na extremidade sem o nó (2). O resultado deverá ficar parecido com a figura 3. Em seguida, faça um pequeno corte seguindo o veio da madeira (4), de forma a obter um resultando semelhante à figura 5. Para fazer uma pena de ganso, apenas faça o corte chanfrado na ponta da raiz da pena.

 

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Esquema de confecção de uma pena de bambu. Ilustração: Marcelo Albuquerque, 2008.

 

Bico-de-pena: O bico-de-pena é uma ferramenta de desenho bastante popular constituído de uma pena de aço e um cabo. Produz um fino e limpo desenho, utilizado principalmente para desenhos lineares e caligráficos. O bico-de-pena se presta à várias aplicações, do desenho artístico e técnico à caligrafia. Basicamente, sua estrutura e funcionamento se baseiam no reservatório e no duto por onde a tinta escorre até o suporte. O duto é formado por um corte, geralmente simétrico, que se finaliza no reservatório, dividindo a pena ao meio até sua metade. Quanto maior a pressão na pena, mais os lados se separam permitindo que a tinta flua com maior intensidade. É nesta hora que é exigida a habilidade do artista para, com um único traço, revelar os valores de linha, ou seja, linhas grossas e linhas finas.

 

Penas de aço e cabos. A forma comum da pena de aço e a intensidade do traço, de acordo com a pressão exercida sobre a pena. Foto e ilustração: Marcelo Albuquerque, 2008.

 

Canetas nanquim: São canetas específicas para trabalhos técnicos. Possuem um reservatório recarregável e são encontradas em várias numerações de espessura. São bastante frágeis e deve ser usado um desincrustante para nanquim. Atualmente caíram em desuso devido aos avanços da informática. Hoje encontramos boas canetas-nanquim descartáveis.

 

Canetas tipo nanquim descartáveis. Foto: Marcelo Albuquerque, 2008.

 

Pincéis: Os pincéis são essenciais em um trabalho com nanquim. Prestam-se aos trabalhos com aguadas e também com a tinta concentrada. Praticamente se pode trabalhar com qualquer tipo, observando a natureza do trabalho e a escolha de pincéis macios ou duros. Com eles, se fazem linhas puras e texturas com bastante versatilidade.

 

Instrumentos alternativos e monotipias: Canudinhos, esponjas e trinchas são instrumentos ricos em experimentações criativas. Pode-se usar o sopro nos canudinhos, a textura da esponja e da trincha, além de podermos “carimbar” diversos objetos a nossa escolha.

 

Suportes e técnicas: Para se trabalhar com nanquim, praticamente qualquer suporte é adequado. Vale lembrar que, para obter uma maior durabilidade e qualidade do desenho, é necessário o uso de bons papéis artísticos disponíveis em lojas especializadas, observando principalmente seu pH e gramatura. Papéis que absorvam melhor a água, como os papéis de algodão, são excelentes suportes para técnicas aguadas e secas, porém papéis mais baratos, como o genérico “Canson”[1], não são adequados para aguadas, pois se desmancham ao serem manuseados com água, enquanto outros não conseguem absorver bem as manchas de água. Entretanto, cabe aos artistas redescobrirem as técnicas e inventar outras tantas novas. Porém o respeito às técnicas tradicionais é de extrema importância para aquele que se inicia nos estudos da arte.

 

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Texturas e desenhos formados a partir de pedaços de pano, esponjas, fios e diversos materiais. Marcelo Albuquerque, 1998.

 

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Saul Steinberg: Fingerprint landscape, 1950. Impressões digitais. Fonte: http://www.saulsteinbergfoundation.org/. Acesso em 02 de fevereiro de 2009.

 

Bico de pena e canetas-nanquim: As canetas-nanquim nos trazem o conforto e a praticidade no trabalho, evitando alguns acidentes de percurso como derramamento de tinta. Porém as mesmas não possuem a versatilidades da velha pena de aço, bastante popular mesmo em tempos de alta tecnologia. Existem basicamente duas formas de se trabalhar com o bico-de-pena:

 

Hachuras: desenhos feitos a partir do distanciamento dos traços. É a forma mais tradicional de desenho, não permitindo que se “colora” o desenho, ou seja, o preenchimento de tons é formado pela interseção e sobreposição de inúmeras linhas puras, formando uma escala de tons. Observe a imagem do cartunista francês Serre e como ele utiliza a hachura em seu desenho.

 

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Marcelo Albuquerque: Paisagem e Arquitetura, 2007. A4. Aguada e bico de pena sobre papel.

 

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Marcelo Albuquerque: Macacos. Bico de pena e nanquim, 29.5 x 42 cm. 2003.

 

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Saul Steinberg: Untitled, 1949-54. Nanquim e lápis sobre papel, 14 ½ x 23 ¼ in. Fonte: The Saul Steinberg Foundation. Disponível em: http://www.saulsteinbergfoundation.org. Acesso em 02 de fevereiro de 2017.

 

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Desenho de estudante a partir de um galho feito com pontilhismo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2008.

 

Valor de linha: usa-se aqui a pressão das mãos para criar linhas finas e linhas grossas. Quanto mais leve for o traço, mais fino; quanto mais pesado, mais grosso.

 

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Van Gogh: Noite estrelada, 1889. Pena e nanquim. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Vincent_van_Gogh. Acesso em 02 de fevereiro de 2009.

 

Aguadas: As aguadas podem ser trabalhadas em conjunto com pincéis e penas. Elas nos proporcionam a leveza própria da aquarela com efeitos inesperados, muitas vezes bem-vindos. Grande parte de seus princípios de criação estão vinculados às técnicas de aquarela, portanto consulte o capítulo referente a esta técnica específica. Portanto, podemos utilizar o suporte (geralmente o papel) seco ou úmido, recebendo a tinta de forma saturada espalhando e diluindo pelo suporte ou já diluída em porções variadas de diversas intensidades e colorações. Podemos também associar as aguadas a outras técnicas, com tintas, pigmentos, óleos, máscaras, entre outros, permitindo ao artista uma infinidade de combinações e resultados inovadores.

 

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Marlene Dumas: instalação Measuring your Own Grave, 2008, Museum of Contemporary Art, Los Angeles Models, 1994, Aquarela e nanquim sobre papel, 62 x 50 cm (cada). Collection: Van Abbemuseum, Eindhoven, the Netherlands. Fonte: Marlene Dumas. Disponível em: http://www.marlenedumas.nl/. Acesso em 02 de fevereiro de 2017.

 

[1] Canson é uma empresa francesa fabricante de papel, que produz inúmeros tipos de papéis de qualidade.