Por Marcelo Albuquerque

 

O Anfiteatro Flaviano, conhecido como O Coliseu, talvez a mais emblemática construção romana, foi iniciado por Vespasiano em 72 e inaugurado em 80 por seu filho Tito Flávio (79 – 81). Foi terminado por Domiciano entre 81 a 96. É o maior anfiteatro romano já construído e se tornou o símbolo da própria Roma. Estima-se uma capacidade para 50.000 a 80.000 espectadores. O edifício forma uma elipse com perímetro de 527 m, com eixos medindo aproximadamente 187 e 156 m. A arena medida cerca de 86 × 54 m, e altura atual atinge 48,5 m, mas originalmente possuía 52 m. Assim como o Arco de Tito, o trabalho foi financiado com as receitas resultantes de impostos e despojos do saque do Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C.

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Anfiteatro Flaviano, o Coliseu, visto a partir das encostas do Esquilino, local da antiga Domus Aurea de Nero. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Anfiteatro Flaviano, o Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A área construída foi o vale entre o Fórum e o Celio, no local do lago artificial da Domus Aurea de Nero. A demolição dos edifícios e da imagem de Nero foi parte de uma política de Estado devido ao seu desastroso e infame governo, e o Coliseu seria uma excelente oportunidade do império devolver à Roma o terreno usurpado por Nero com um edifício de gigantesco apelo popular. Vespasiano drenou o lago e lançou as bases do anfiteatro, vindo a morrer em 79. Tito acrescentou novas fileiras de assentos e o inaugurou com cem dias de jogos, em 80, em homenagem à Vespasiano. Logo depois, o segundo filho de Vespasiano, Domiciano, completou o trabalho. Acredita-se que o anfiteatro comportava, no início, naumaquias, ou seja, batalhas navais encenadas na arena, com águas desviadas do Acqua Claudia, antes da construção dos hipogeus para abrigar os gladiadores, condenados e animais selvagens, além dos sistemas de elevadores que elevavam as atrações do hipogeu para as areias da arena.

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Pollice Verso por Jean-Léon Gérôme, 1872. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Coliseu. Acesso em: 14 set. 2016.

O nome Coliseu é derivado da estátua gigante que representaria o próprio imperador Nero, mas que foi preservada durante a demolição do palácio do mesmo, a Domus Aurea, reformada para representar a imagem do deus Sol Invictus. O colosso foi transferido de seu local original para se assentar em frente ao templo de Vênus e Roma durante o império de Adriano.

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Vista interna do Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Templo de Vênus e Roma, em frente ao Coliseu e visto de dentro dele. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Além das atrações diversas oferecidas pelo anfiteatro, em especial as lutas gladiatórias, configurava-se como uso político das massas. Suas fundações de concreto, com paredes radiais de tufo (rochas de baixa densidade granuláveis), eram revestidos de blocos de concreto no topo e os acabamentos exteriores de mármore travertino. Sua fachada foi inspirada no Teatro de Marcelo, e da mesma forma tem-se a sobreposição das ordens toscana (semelhante à dórica), jônica e coríntia. Segundo Janson, as colunas e arcos reestabelecem a escala humana no monumental.

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Paredes radias do terceiro nível, na parte inferior da fotografia. Anfiteatro Flaviano, o Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Abóbadas de aresta do segundo nível. Anfiteatro Flaviano, o Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Museu do Coliseu, nas galerias internas do anfiteatro. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

O termo vomitorium passou a designar os corredores de acesso dos anfiteatros e teatros, devido à capacidade de rápida evacuação das pessoas em um curto espaço de tempo. Vomitoria designa as entradas dos acessos para a arena e arquibancadas. Supreendentemente, o projeto arquitetônico do Coliseu ainda causa espanto e admiração no mundo contemporâneo devido à sua engenhosidade e praticidade. O Coliseu possuía esculturas instaladas nos arcos externos, de cor avermelhada, conforme vemos em diversas restaurações virtuais do Coliseu em vídeos, filmes e documentários.

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Diagrama dos níveis de assentos. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Colosseum. Acesso em: 14 set. 2016.

Concreto romano, conhecido como pozolana, nos corredores do primeiro nível e escadarias internas. Anfiteatro Flaviano, o Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Concreto romano revestido de mármore e alvenaria em dois arcos radiais. Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Os assentos dos espectadores eram inteiramente de mármore e divididos por faixas divisórias de alvenaria, em cinco áreas horizontais, para as diferentes categorias de público e classes sociais. A área inferior era reservada para senadores e suas famílias. O mais alto nível, nos degraus sob a colunata, era destinado às mulheres, devido às leis moralizantes da época de Augusto. Os espectadores alcançavam os seus respectivos lugares entrando pelos arcos numerados, da mesma forma que entramos nos modernos estádios através das portarias numeradas respectivas ao nosso bilhete de ingresso. Os números foram gravados nas pedras-chaves dos arcos, ou pedras angulares.  Imperadores e as autoridades entravam em zonas reservadas situadas no eixo menor da elipse.

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Detalhe do número LII (52) em um dos arcos externos do Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Mármores originais das arquibancadas. Anfiteatro Flaviano, o Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Indicação de mármore de assento (locum) do Praefectus Urbi (prefeito de Roma) Fabius Felix Passifilus Paulinus, de 450-476 d.C., no Museu do Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A arena elíptica possuía um pavimento parte de tijolos e parte de madeira, coberta com areia, de forma a absorver o sangue dos espetáculos. Se separava das arquibancadas por um alto pódio de aproximadamente 4 m, decorado com nichos e mármores. Os espectadores eram protegidos por uma balaustrada de bronze. O hipogeu era a área de serviços subterrânea, dividido em uma grande passagem central ao longo do maior eixo de comprimento, com doze corredores curvos, dispostos simetricamente em ambos os lados. Elevadores de carga alçavam carros e animais utilizados em jogos. Duas entradas monumentais com grandes arcos, nas extremidades do eixo maior, davam diretamente na arena e eram destinadas à entrada dos principais personagens dos jogos, como gladiadores e grandes animais. A arena também podia ser acessada pelos os atendentes através de passagens de serviço que corriam sob o pódio da arquibancada.

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Hipogeu. Anfiteatro Flaviano, o Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 Entradas monumentais com grandes arcos, nas extremidades do eixo maior, que davam diretamente na arena, destinadas à entrada dos principais personagens dos jogos, como gladiadores e grandes animais. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Maquete reproduzindo o sistema de elevadores do hipogeu, no museu do Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

O ático possuía 40 pequenas janelas retangulares entre as pilastras, ornamentados com os escudos de bronze.  Mísulas se destacam de forma a suportar as estruturas do velarium, a cobertura manobrável que protegia os espectadores do sol e chuva, por um destacamento de marinheiros profissionais.

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Detalhe do ático do Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Os jogos gladiatórios, introduzidos em 264 a.C. pelo cônsul Décimo Junio Bruto, foram proibidos em 404 por Honório, no Império em processo de cristianização, que se opunha às práticas gladiatórias e pagãs. A invasão dos bárbaros contribui para o esvaziamento gradual de Roma, que passará de mais de um milhão de habitantes nos tempos de Augusto para pouco menos de 100 mil no início da Idade Média.

Durante o império, sucessivas restaurações registradas na história ocorreram sob os imperadores Antonino Pio, Heliogábalo, Alexandre Severo e Gordiano III, e deste último destaca-as a cunhagens de moedas com a imagem do Coliseu, do Colosso de Sol Invictus e do Meta Sudans, por volta do ano 240. Seguem-se mais restaurações sob os imperadores Décio e Honório, que havia proibido os jogos de gladiadores e desde então, até os tempos do rei ostrogodo Teodorico (454-526), o Coliseu foi usado para a Venatio (veações), ou seja, os espetáculos com feras selvagens e caças a estes animais, onde centenas deles podiam ser mortos em um único dia. Anteriormente, estes espetáculos antecediam as execuções públicas e os combates de gladiadores, a atração máxima. O último combate de gladiadores foi em 437. Após o saque visigótico de Roma de 410, liderado por Alarico, ocorre uma restauração após um terremoto em 442, e mais outra após um terremoto em 470. Outros terremotos foram registrados durante o início da Idade Média.

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Moeda de Gordiano III, onde figuram o Colosso e o Meta Sudans, ao lado esquerdo do Coliseu. Adaptado da Wikipédia. Disponível em: https://it.wikipedia.org/wiki/File:Gordianus_III_%C3%86_medallion_125357.jpg. Acesso em 20 jan. 2017.

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Fachada em processo de restauração. Anfiteatro Flaviano, o Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Após o abandono de Roma, após a queda do Império do Ocidente, o Coliseu foi usado no século VI como cemitério e fortificação, na Alta Idade Média.  Foi severamente danificado por um terremoto em meados do século IX e pelo grande terremoto de 1349, causando o colapso do lado sul exterior. Suas ruinas continuaram a fornecer material de construção, além de ter sido ocupado com residências durante o final da Idade Média. Os blocos de mármore travertino foram removidos sistematicamente nos séculos XV, XVI e XVII para a construção de novos edifícios. Os terremotos e saques levaram o Coliseu ao seu estado atual de ruínas. Durante a Idade Média, serviu como pedreira e seus materiais foram retirados para atenderem outras construções. Grande parte dos buracos que se encontram espalhados por todo o edifício são decorrentes das retiradas de gatos (grampos de metal usados para consolidar a estrutura) que uniam grandes blocos de pedra e revestimentos.

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Detalhe das mangueiras azuis borrifando água para fins de conservação e restauração, devido às altas temperaturas do verão romano. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Buracos espalhados na fachada do Coliseu, criados para a retirada dos gatos durante a Idade Média. Anfiteatro Flaviano, o Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Durante o Jubileu de 1675, o Coliseu assumiu o caráter de local sagrado pela memória dos mártires cristãos ali condenados à morte, segundo a tradição, compondo com santuários da Via Crucis do Fórum Romano. Atualmente é propriedade da Igreja Católica e funciona como local de culto e museu, com exposições de artefatos e lojas nos corredores internos.

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Placa de Pio IX referente à restauração de 1852, na fachada voltada ao Esquilino. Anfiteatro Flaviano, o Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Outra grande restauração começou depois de 1806, após um violento terremoto que comprometeu o anel externo do lado ocidental. Foram adicionadas estruturas de alvenaria de tijolos, diferentes do material original, provavelmente mais por razões económicas e não por um desejo de diferenciação, como recomenda as práticas de restauração do século XX, como descreveu Cesare Brandi[1] em Teoria da Restauração.

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Alvenaria adicionada pelo arquiteto Raffaele Stern em 1806. Anfiteatro Flaviano, o Coliseu. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Os restos da Meta Sudans, uma fonte do período da Dinastia Flaviana adjacente ao Coliseu, foi finalmente demolida entre 1933 e 1936, juntamente com os restos da base do Colosso de Nero, durante as obras de construção do Via Imperial de Mussolini. Esse tema será melhor comentado no Arco de Constantino. Em 1939 o hipogeu foi escavado revelando as estruturas subterrâneas da arena.

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Muito cuidado ao tirar fotos dos gladiadores que ficam no entorno do Coliseu: saiba que eles irão cobrar caro pela recordação. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Diversos edifícios foram influenciados pela arquitetura do Coliseu: Pallazo Corner em Veneza, palácio ducal em Mântua, Castelo Farnese em Caprarola, Kongresshalle (1935, inacabado) do Partido Nazista em Nuremberg, o exterior da biblioteca pública de Vancouver na Columbia Britânica, o Los Angeles Memorial Coliseum e o Palazzo della Civilta Italiana, conhecido como o Coliseu Quadrado. Este último foi construído para Mussolini para a exposição universal de 1942, que não aconteceu, devido ao início da Segunda Guerra Mundial. Os arquitetos foram Giovanni Guerrini, Ernesto Bruno La Padula e Mario Romano.

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O “Coliseu Quadrado”, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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O Palazzo Farnese em Caprarola. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Villa_Farnese. Acesso em 20 jan. 2017.

A computação gráfica Rome Reborn, projeto de Bernie Frischer, apresenta, aos 1 min. e 50 segs., uma reconstituição do Arco de Constantino, a fonte Meta Sudans e o Coliseu. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vrIEwjgfbYs.

[1] Para Cesare Brandi, A restauração deve visar ao restabelecimento da unidade potencial da obra de arte, desde que isso seja possível sem cometer um falso artístico ou um falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da passagem da obra de arte no tempo (p. 33). Entre alguns pontos comentados por Brandi, destaco: Ruína: tudo aquilo que é testemunho da história humana, mas com um aspecto bastante diverso e quase irreconhecível em relação àquele de que se revestia antes, e que não pode ser reconduzido à unidade potencial. A restauração da ruína deve focar-se na consolidação, para promover uma reintegração da unidade potencial originária. Deve-se valorizar a conservação preventiva e evitar as intervenções radicais. Deve-se respeitar não só a ruína ancestral, mas também a intervenção bárbara do vândalo, quando se constituir de um elemento histórico e documental. Deve-se respeitar intervenções artísticas posteriores, quando se constituir de um elemento importante.

 

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