Por Marcelo Albuquerque

Ordem dórica

A ordem dórica surge por volta de 600 a.C., quando os gregos começaram a imitar em pedra as estruturas templárias (ver Templos e tipologias greco-romanas). Para Summerson, quando vemos um templo dórico de pedra estamos vendo uma representação esculpida em pedra de uma ordem dórica construída em madeira, ou seja, um equivalente escultórico. Provavelmente os templos mais sagrados e ricos foram sendo reconstruídos em pedra, gradualmente. Entretanto, as formas sagradas deveriam ser preservadas, de forma que a pedra imitasse a carpintaria e acabamentos estilizados em madeira. Posteriormente, os templos foram copiados e replicados sistematicamente, tornando seus desenhos consolidados e estáveis.

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Ordem dórica. Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_d%C3%B3rica. Acesso em: 20 jan, 2017.

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Pilastra de ordem dórica e uma pequena pilastra de ordem coríntia, à direita, na Sala da Loba Capitolina, nos Museus Capitolinos. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A ordem dórica é a mais antiga, desenvolvida no continente grego, cujo capitel aparenta uma almofada que assenta a arquitrave sobre as colunas. De acordo com Vitrúvio, é principalmente empregada nos templos dedicados a divindades masculinas, como o templo na Jônia de Apolo Paniônio, por causa da proporção, solidez e elegância de um corpo viril, como foi visto primeiramente em um templo desse gênero nas cidades de Dóride. Se relaciona aos princípios espartanos de rudeza e força. É a mais simples das três ordens gregas definindo um edifício em geral baixo e de carácter sólido. A ordem dórica, ao lado da toscana, é apontada como a construção mais barata entre as outras ordens, devido à simplificação de elementos ornamentais que encareceriam uma edificação.

A coluna dórica constitui-se do fuste (a coluna em si) e o capitel (o coroamento da coluna), mas não possui base, tradicionalmente[1]. Tradicionalmente, a coluna dórica não tem base. Tem aproximadamente seis vezes o tamanho do diâmetro da coluna em altura. O fuste é raramente monolítico e pode apresentar vinte estrias ou sulcos verticais, segundo Vitrúvio, denominadas caneluras. O capitel é formado pelo équino, ou coxim, que se assemelha a uma almofada e por um elemento quadrangular, o ábaco, esculpido no mesmo bloco do capitel, apesar de não aparentar. A cornija apresenta-se horizontal nas alas, quebrando-se em ângulo nas fachadas de acordo com o telhado de duas águas. Os mútulos parecem extremidades de madeira que se projetam para suportar os beirais que evitam que as águas das chuvas escorram pelas fachadas. O friso é intercalado por módulos compostos de três estrias verticais, os triglifos, com dois relevos consecutivos lisos ou decorados, chamadas métopas. Os triglifos se assemelham às extremidades das ancestrais vigas de madeira visíveis do lado externo do entablamento, apoiadas na arquitrave. A tenia se assemelha a um elemento de junção, uma cavilha de madeira, presos aos triglifos pelas gotas. As gotas têm forma de um tronco de cone ou tronco de pirâmide.

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Gotas ornamentais em porta de madeira do CCBB BH. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Ordem jônica

A ordem jônica desenvolvida na região da Jônia, nas ilhas orientais gregas, remete a elementos vegetais estilizados com quatro volutas no capitel[2]. Foi relacionada por Vitrúvio com o feminino e à delicadeza da mulher, para o templo jônico de Diana. Segundo o tratadista, a coluna possui uma base larga, com uma espira imitando um sapato, que dá mais impulso estético e leveza. A coluna possui geralmente de oito a nove módulos de altura. O fuste é mais elegante e apresenta vinte e quatro caneluras, remetendo às pregas do vestuário feminino. O capitel acentua a analogia feminina por representar cabelos encaracolados sobre as orelhas. Remete-se também à analogia vegetal da coluna como uma palmeira, devido à influência orientalizante, como visto no Oriente Médio. Os ornamentos, como óvulos, dardos e festões, podem remeter aos ornamentos femininos de madeixas, comenta Vitrúvio.

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Ordem jônica no Templo de Saturno do Fórum Romano, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Ordem jônica. Adaptado de Wikimedia Commons, por Marcelo Albuquerque, 2017.

 

Ordem coríntia

A ordem coríntia possui folhas de acanto ornamentais, sendo a ordem mais prestigiada entre os romanos. De acordo com Vitrúvio, as colunas coríntias possuem as mesmas comensurabilidades que as jônicas, com exceção dos capitéis, porém proporcionalmente um pouco mais altas e mais delgadas. Os elementos sobre as colunas podem ser dispostos segundo o modo dórico e jônico. Se relacionam com a delicadeza virginal das donzelas em tenra idade, porque possuem uma configuração de membros mais grácil e adornos mais belos. De acordo com Summerson, a ordem coríntia sempre foi vista como feminina, enquanto a dórica como a  ordem masculina. A ordem jônica, segundo o autor, seria algo assexuado, no meio do caminho. A ordem coríntia também é escolhida por transmitir as ideias de opulência, abundância e luxo e, se comparada à ordem dórica, possui custos mais elevados de construção devido ao grande número de ornamentação.

Capitel coríntio no Capitolino. À direita, capitel coríntio, da época de Nero. Mármore Pentélico. Museu do Palatino, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Segundo a lenda descrita por Vitrúvio, uma virgem de Corinto foi acometida por uma enfermidade e faleceu. Após seu sepultamento, sua ama reuniu e dispôs num cesto as poucas coisas às quais ela se afeiçoara enquanto vivera. A ama levou o cesto a seu túmulo e colocou sobre ele um pequeno teto, para que os pertences se conservassem melhor. O cesto havia sido colocado casualmente sobre raízes de acanto, uma típica planta do Mediterrâneo, que verteram, com o passar do tempo, folhagens e hastes em volutas. Calímaco, então, em virtude da elegância e da graça de sua arte de trabalhar o mármore, passando perto desse monumento, reparou no cesto e na delicadeza da folhagem e, encantado, executou para os coríntios colunas segundo esse modelo e instituiu suas proporções.

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Johann Christian Reinhart: A invenção do capitel coríntio por Calímaco. 95,8 x 135 cm. Óleo sobre tela, 1846. Fonte: Wikipedia. Disponível em: https://de.wikipedia.org/wiki/Johann_Christian_Reinhart. Acesso em: 20 jan, 2017.

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Capiteis coríntios no Panteão, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

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Base de plinto de coluna coríntia do pórtico do Panteão, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 Ordem compósita

A ordem compósita é de origem romana, se caracteriza basicamente pela junção e sobreposição da ordem jônica sobre a coríntia. A ordem Compósita, até então considerada um desenvolvimento da Coríntia, foi descrita por Alberti, em De re aedificatoria. Serlio também a aponta a ordem coríntia nas pilastras do último nível da fachada do Coliseu, segundo Summerson.

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Capitel de pilar de ordem compósita, acervo do Museu do Palatino. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Ordem toscana

A ordem toscana tem origem na arquitetura etrusca. A ordem toscana se assemelha à ordem dórica, sendo também chamada de dórico romano. Segundo Vitrúvio, as colunas devem ter um diâmetro de base correspondente à sétima parte de sua altura, e uma altura igual a um terço da largura do templo, entre outras proporções descritas com maiores detalhes. Seus capitéis são redondos e possuem toros (anéis).

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Capiteis toscanos da colunata de Bernini, no Vaticano. Século XVII. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Templo Etrusco de Alatri. Museu Nacional de Villa Giulia, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015. À direita, esquema de ordem Toscana, segundo Vignola. Fonte: Wikipedia. Disponível em: https://it.wikipedia.org/wiki/Ordine_tuscanico. Acesso em: 20 jan, 2017.

[1] A coluna canelada grega provavelmente tem como origem ancestral o Antigo Egito, em especial algumas colunas encontradas no templo de Hatshepsut, em Luxor. Os próprios capiteis possuem parentesco com as meias-colunas de Saqqarah e com a civilização minoica (gentileza consultar a arte e arquitetura na Grécia).

[2] Acredita-se também que suas formas provêm de motivos ornamentais egípcios, com base no lótus e no lírio, sendo também possível a origem nas representações de chifres do bode ou de um caracol.