William Collett e a aquarela de paisagem na primeira metade do séc. XIX

Por Marcelo Albuquerque

Este artigo foi escrito para a exposição de William Collet, realizada no Brasil em 2010
A obra imagética de William Rickford Collett, em um primeiro momento, se relaciona a uma tradição de artistas viajantes que se sucederam no Brasil durante grande parte de nossa história. Consideramos, no entanto, o fato de Collett não se enquadrar propriamente como um artista, mas sim como engenheiro entusiasta da pintura. Porém, em seu diário, a presença da terra natal, Inglaterra, se faz constante e, portanto, não poderia deixar de focar a tradição inglesa da aquarela.

Collett

Assim como os viajantes aquarelistas em solo brasileiro, William Collett coletou dados fundamentais sobre a paisagem, o percurso, as pessoas e os costumes. Um trecho em especial me chamou a atenção quando, de sua viagem, passa por Congonhas do Campo, em Minas Gerais. O viajante cita um encontro com esculturas em frente a uma igreja, para em seguida deduzir como vindas da Europa, por sua maestria na composição e na técnica, desconhecendo também o tipo de pedra das esculturas. Claros sinais de seu encontro com Aleijadinho e suas atribuições.

De caráter documental e amador, as aquarelas apresentam um registro naturalista dos fatos, onde percebemos o entusiasmo e vigor de Collett pelo desenho, ao longo das mais de setenta imagens de seu diário. Pois não só através de artistas profissionais a imagem do Brasil foi registrada, mas também através de pintores amadores vinculados às transações comerciais, diplomáticas e militares. Vale citar a figura do militar inglês Henry Chamberlain (1796 – 1844), que produziu diversos trabalhos sobre a cidade do Rio de Janeiro.

Com a produção de papéis de alta qualidade no séc. XVIII, a primeira escola nacional de aquarelistas emergiu na Grã-Bretanha, surgindo o termo “Escola Inglesa”. Esta tradição começou com os desenhos topográficos que se popularizaram nos sécs. XVII e XVIII, enquanto a Grã-Bretanha despontava como potência mundial. A aquarela topográfica foi usada primeiramente como um registro objetivo de um lugar real em uma era antes da fotografia. Quando as figuras humanas aparecem, são para principalmente demonstrar as atividades típicas de um lugar ou fornecendo um sentido da escala arquitetônica. A aquarela foi bastante utilizada por sua praticidade de uso ao ar livre e em áreas remotas. Outra função das técnicas de perspectiva e de desenho topográfico foi sua utilização em academias militares, usadas para registrar posições defensivas ou costumes de povos conquistados. Finalmente, os topógrafos também gravaram as descobertas das expedições naturalistas e arqueológicas, muitos deles financiados por sociedades de cientistas naturais amadores e profissionais.

Willian Collett viveu na era romântica, mas seu trabalho seguiu os passos dos topógrafos. Os artistas e poetas românticos seguiam seus ímpetos e impulsos criativos – Sturm und Drang (tempestade e ímpeto). As paisagens remetiam às relações do homem com as forças da natureza, ao sublime e ao melancólico, o êxtase diante da força divina enxergada pelas forças naturais. É neste período que a pintura de paisagem afirma sua autonomia nas artes.

William Collett viveu no período da Escola Inglesa e na era dos viajantes aquarelistas no Brasil. Seus registros de sua passagem pelo Brasil devem ser mais que valorizados; devem ser estudados e levados ao grande público para que sua obra não se afaste de nós brasileiros.

Marcelo Albuquerque, fevereiro de 2010.