Por Marcelo Albuquerque

Para que tenhamos uma maior compreensão da riqueza de nosso passado, especialmente em Minas Gerais e no Brasil, é necessário um grande esforço de preservação dos sítios arqueológicos, pois convivemos com diversos interesses que colocam em risco sua preservação, como a especulação imobiliária, a mineração e o vandalismo. É necessário conhecer para preservar!

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Vandalismo na Gruta da Macumba. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

Existem vários agentes de degradação, tanto naturais quanto de iniciativa humana. Entre os naturais se encontram: erosões, escorrimentos naturais de rochas, ninhos de insetos e aracnídeos, líquens, formações de cristais, entre outros. Os principais e maiores vem das atividades humanas: agricultura e pecuária, mineração, construções urbanas e rurais, vandalismo. Segundo Alenice Baeta:

Muitas das vezes, os pichadores nem percebem que há, nas paredes, pinturas rupestres pré-coloniais, desconhecendo, inclusive, a sua existência. No entanto, há sinais claros onde estas intervenções são realizadas propositadamente sobre os grafismos arqueológicos; é o caso de pessoas que contornaram com giz as figuras, visando destaca-las para tirar fotografias, ou que completaram com caneta hidrocor o rabo de um peixe para que a figura ficasse “completa”, como ocorreu na Lapa da Escrivania. Na Lapa de Cerca Grande foi ateado óleo de cozinha em uma pintura, buscando reaviva-la momentaneamente para uma filmagem. Atualmente, é muito raro identificar um sitio arqueológico nesta região que ainda não tenha sido pichado, mesmo que discretamente (PROUS; BAETA; RUBBIOLI, 2003, p. 118).

Abaixo estão relacionados os principais agentes de degradação dos sítios arqueológicos, de origem humana:

– Agricultura e pecuária desordenados;

– Exploração de minério, cal e salitre, entre outros;

– Construções civis e obras em geral em sítios arqueológicos;

– Pichações em cavernas e monumentos;

– Venda ilegal de fragmentos e artefatos arqueológicos e fósseis;

– Artefatos arqueológicos e fósseis arrancados para souvenir;

– Fogueiras em ambientes de preservação;

– Acampamentos irregulares;

– Vandalismo e depredação;

– Descarte indevido de lixo.

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Capa do livro O patrimônio arqueológico da região de Matozinhos: conhecer para proteger. Acervo da EBA-UFMG. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

Uma fundamental referência bibliográfica é O patrimônio arqueológico da região de Matozinhos: conhecer para proteger. Foi escrito por André Prous, Alenice Baeta e Ezio Rubbioli. Segue abaixo a introdução, por Augusto Auler, PhD do Instituto de Geociências da UFMG:

Em 1836, por muitas vezes o dinamarquês Peter Lund caminhou pelas campinas que bordejam ó maciço calcário de Cerca Grande, por ele descrito como as “ruínas de um palácio de gigantes”. Neste cenário que tanto evoca a pre-historia, Lund descreveu para o mundo, pela primeira vez, a existência de arte rupestre na região de Lagoa Santa. Na ocasião, o desenhista e auxiliar de Lund, o norueguês Peter Andreas Brandt nos legou uma imagem das pinturas em uma singela aquarela.

Quase 150 anos foram necessários para que as pesquisas arqueológicas em Lagoa Santa adquirissem um caráter permanente, com o estabelecimento da Missão Arqueológica Francesa de Minas Gerais. O impulso gerado pelo trabalho continuo e sistemático de André Prous e sua numerosa equipe de colaboradores, atual e passada, permitiu que melhor entendêssemos quem foram e como viveram os primeiros brasileiros que aqui se estabeleceram a alguns milhares de anos.

Hoje, ao percorrermos o berço da pré-história brasileira, os ecos de nossos antepassados são abafados por sirenes e sons de um Brasil moderno, difusos em meio a névoa de cimenteiras e sufocados pela balbúrdia humana da expansão urbana sobre uma região antes bucólica, porém englobada cada vez mais pelos tentáculos de Belo Horizonte.

As pinturas ainda lá estão, em alcovas sombreadas de paredões rochosos, tímidas e tênues, como que pedindo proteção, tentando se fazer entender. Esperando que um arqueólogo as descubra antes que sejam profanadas pelo grafite rude de pretensos artistas modernos. Este livro não só vem resgatar um pouco de uma história de milhares de anos, como também testemunha o notável trabalho dos autores e suas equipes, que reconstruíram, a partir de fragmentos retirados da terra de abrigos e cavernas, a historia de uma Lagoa Santa que não existe mais. Que esta obra nos ensine a voltar os olhos para o passado antes de decidir o nosso futuro e que sirva como um resgate de um patrimônio tão importante quanto desconhecido.

Augusto Auler PhD. Instituto de Geociências, Universidade Federal de Minas Gerais.

No blog O melhor de Lagoa Santa, encontrei uma bela carta de Carlos Dummond de Andrade, sobre os perigos que rondam a preservação do patrimônio natural, artístico e científico da região. Segundo o blog[1]:

Lagoa Santa foi inspiração pra mais um modernista brasileiro, o mineiro Carlos Drummond de Andrade. Com sua lucidez e sensiblidade ele ja sabia da exploração do Carste de Lagoa Santa virando cimento para o Brasil, lá na década de 70, e assim resolveu escrever sua crítica numa carta ao Dr. Lund, em seu repouso:

Cuidado, Dr. Peter Wilhelm Lund, que dorme em seu último sono em Lagoa Santa: previno-lhe que seu repouso eterno corre perigo. A região em que o senhor viveu, pesquisou e estabeleceu os fundamentos da Paleontologia Brasileira está sendo varrida pelo ciclone do desenvolvimento-acima-de-tudo, que promete acabar com as suas grutas, os seus fósseis e toda a pré-história nacional. A exploração de calcário para fabrico de cimento vai arrasar as maravilhosas formações naturais que compuseram o cenário definitivo de sua vida. Amanhã, quem sabe? Esgotados os depósitos de matéria-prima, o senhor mesmo será tecnicamente classificado como calcário de 2º grau, e do seu jazigo inscrito nos livros do Patrimônio Histórico do Brasil se fará uma fornada de cimento para novas torres redondas na Barra da Tijuca.

De resto, sei que não adianta meu aviso, sei que não adianta impedir a transformação da paisagem em cimento. Temos que viver o nosso tempo, ou, mais corretamente, morrer o nosso tempo. Quem falou aí em preservar os traços deixados pelo homem primitivo, como tarefa de sumo interesse para a compreensão da vida? Esse perdeu o seu latim – o mesmo latim de que o senhor se serviu para identificar o seu megatherium, o seu chlamidotherium, o seu glyptodon. Pois o próprio latim não acabou, no quadro da cultura geral?

Desculpe, meu sábio venerando, este chamado importuno, que nem sequer deve tê-lo acordado. Certamente já o acordara antes o tonitrom dos tratores incumbidos de devastar o solo, a vegetação e toda lembrança do mundo imemorado. A esse som nada musical sucederá outro, que o manterá desperto: o das britadeiras funcionando em ritmo de Brasil grande e apressado. O senhor perdeu o direito à paz, como de resto nós todos o perdemos, e as próprias máquinas. Fique aí quietinho em seu túmulo, enquanto se anuncia para meados de 1975 o desaparecimento da Lapa Vermelha, ou Lapinha, que era a menina-dos-seus-olhos… A Lapinha, sabe? Que vinha sofrendo a agressão dos namorados, dos torcedores de futebol, dos fotógrafos de Manchete, que nela rabiscavam inscrições bobas ou que revestiam de óleo suas pinturas, para melhor efeito de cores das reproduções, enquanto os afeitos a souvenirs furtavam lascas de estalactites e estalagmites, para se gabarem de ser proprietários de esculturas da natureza. Esse pessoal executou os serviços preliminares de desbastamento da área. Vem agora a fase sistemática de desintegração plena da Lapinha, aquela mesma em cujo recinto sombrio e rico de mistérios telúricos o senhor passeou e meditou, no itinerário do sonho para a ciência.

Prometo versejar uma elegia, quando tudo estiver consumado. É só o que posso fazer, em honra da caverna clássica e do sábio que a indicou ao zelo das novas gerações, cuidando que, no futuro, suas investigações teriam prosseguimento, e que ali se instalaria um mutirão de pesquisadores ávidos de descobrir os enigmas da Terra e do Homem. Daqui a seis anos, sabe? Passará o centenário da morte do senhor. Podemos conjeturar que até lá sua morte se desdobrará e multiplicará na morte das grutas. Então, na rasa planície, extinto o eco dos tratores, britadeiras e esteiras transportadoras de calcário, memória não haverá nem do senhor nem dos grupos alegres de turistas que começaram a demolir as criações da natureza para que outros completassem a obra. É possível que, no silêncio, ouvido mais apurado ouça aquela música sem som que se filtra entre o vazio e a ruína, a música do nada. Teremos chegado à perfeição do não-existente, àquele estado de não-ser, que até a morte se distancia. E nessa música irreal se perceberá a vaga exalação de um responso: Minas Gerais vendeu sua alma ao desenvolvimento, e deu de pinga sua pré-história.

Boa-noite, Dr. Lund.”

Carlos Drummond de Andrade (12/03/1974)

 

[1] Fonte: IN-SITU (Informativo do Centro de Arqueologia Annette Laming Emperaire – Nov/2011). Disponível em: http://melhordelagoasanta.wordpress.com/tag/drummond. Acesso em: 12 out. 2012.