Paleopaisagens – A pré-história em Minas Gerais e no Brasil

Por Marcelo Albuquerque

O Brasil está repleto de vestígios arqueológicos, e é dever de todo cidadão contribuir para a sua preservação. Esta responsabilidade incide, principalmente, naqueles que estudam diretamente as disciplinas de arte, arquitetura e urbanismo, design e disciplinas afins. Convivemos e somos vizinhos de sítios arqueológicos, e praticamente não os conhecemos e não os valorizamos como deveriam. É preciso reconhecer, também, que existe um vasto campo profissional que pode ser seguido nas áreas relacionadas à história, sejam teóricas ou práticas, como a própria história da arte, história da arquitetura, conservação e restauração de bens móveis e imóveis, patrimônio histórico e artístico, museologia, arqueologia, paleontologia, entre outros.

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Marcelo Albuquerque. Paleopaisagem. Caneta pigmentada, 21 x 29 cm, 2013.

Acreditava-se que a ocupação das Américas ocorreu em aproximadamente 15.000 a.C., quando o homem atravessou o Estreito de Bhering na era do gelo. Entretanto, os indícios do homem no continente americano já remontam a 50.000 a.C., de acordo com as pesquisas realizadas na Serra da Capivara, no estado do Piauí. Pensava-se que os primeiros habitantes americanos eram os ancestrais dos atuais nativos indígenas, de feições mongólicas, mas as ossadas mais antigas apontam feições negroides, que poderiam ter chegado nas Américas através de ondas migratórias mais antigas ou mesmo pelo mar, sendo povos semelhantes aos aborígenes australianos. Posteriormente, as regiões foram sendo ocupadas por imigrantes de origem mongólica, que acabaram por dominar todo o continente e se subdividirem em grandes civilizações, tribos e etnias, até a chegada dos primeiros portugueses e espanhóis no século XV e XVI da nossa era. A Serra da Capivara, no Piauí, possui a datação mais antiga das Américas, cerca de 50.000 a.C. a 6.000 a.C., com pinturas, ferramentas de pedra lascada, ossadas humanas e de animais e restos de fogões primitivos.

Pinturas rupestres. À direita, a Pedra Furada. Serra da Capivara, Piauí.  Fonte: Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Nacional_Serra_da_Capivara. Acesso em: 15 jul. 2016.

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Visitante na Gruta da Macumba, em Lagoa Santa. Minas Gerais. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

Na região Lagoa Santa e Pedro Leopoldo, Minas Gerais, há onze mil anos, vivia o Povo de Luzia. Luzia foi o nome dado à ossada feminina encontrada na região, de feições negroides, por uma missão de cientistas franco-brasileira. Estes povos conviviam com tatus e preguiças gigantes, mamíferos hoje extintos. Não conheciam a agricultura nem a cerâmica e dependiam da caça e da coleta. Entre os principais sítios arqueológicos estão o complexo da Lapa Vermelha, nos arredores de Confins. Estes povos ocuparam a região até aproximadamente 7.000 a.C., havendo um hiato até 3.000 a.C., sendo a região desde então ocupada por povos horticultores ancestrais dos atuais indígenas, entre elas a tradição tupi-guarani, de feições asiáticas (mongoloides). Isto indica que as Américas foram primeiramente ocupadas por negroides, e não pelos ameríndios ancestrais dos índios atuais, como se acreditava no passado. A região de Lagoa Santa possui a maior concentração de esqueletos antigos, segundo os especialistas.

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Lapa Vermelha, Confins. Minas Gerais. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

As pesquisas, que se iniciaram com a presença do dinamarquês Peter Lund na década de 1840, continuam atualmente com um grande projeto de pesquisa sobre a origem do homem nas Américas coordenado pelo arqueólogo Waltes Neves, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (LEEH) do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB/USP).

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Várzea da Pedra, Mocambeiro. Minas Gerais. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

No Brasil, existem duas definições principais das tradições e estilos regionais. Os conjuntos rupestres de um mesmo período, que apresentem temáticas semelhantes, são agrupados em uma “tradição”, e dentro desta tradição podem ocorrer “estilos”, quando ocorrem em uma região específica dentro de um período no tempo. Já as “fácies” são características peculiares, temáticas e técnicas de elaboração comuns dentro de uma tradição. São elas:

  • Tradição Nordeste: foi definida no Piauí. É caracterizada por um grande número de figuras humanas organizadas e em movimento, realizando tarefas cotidianas e ritualísticas. Grupos de animais podem acompanhar as figuras humanas. Também é encontrada em Minas Gerais.
  • Tradição Planalto: mais comum em Minas Gerais, é encontrada desde o norte do Paraná até o sul de Tocantins. Caracteriza-se pela predominância de animais, em especial os cervídeos, além de peixes, onças, tatus, aves e roedores. Os animais costumam estar cercados por figuras humanas em cenas de caça. As figuras costumam ser monocrômicas, em geral em vermelho e amarelo.

Outro parque merece destaque nesse artigo: o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, em Januária, Minas Gerais, que agrupa um conjunto de grandes cavernas, cujas pinturas rupestres mais antigas datam de cerca de 10 mil anos.

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Peruaçu, Minas Gerais. Dolina dos Macacos. Fonte: Wikipédia.
Disponível em:  https://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Nacional_Cavernas_do_Perua%C3%A7u. Acesso em: 15 jul. 2016.

Foram classificadas na Serra da Capivara pinturas e gravações de obras com motivos naturalistas e obras com motivos geométricos. A figura humana predomina nas formas naturalistas, além de figuras de animais, como mamíferos, pássaros, répteis, insetos e peixes. Os motivos geométricos apresentam figuras espiraladas, circulares, triangulares e linhas paralelas. Entre os sítios da Serra da Capivara se destaca a Toca do Boqueirão da Pedra Furada. O parque nacional foi decretado em 1979, com os esforços da arqueóloga brasileira Niède Guidon e de instituições francesas.

Sempre me perguntam de onde vem minhas referências para a pintura. Uma delas é seguir um roteiro especial, visitando e registrando os pontos de interesse. A imagem a seguir apresenta parte de um roteiro, no noroeste de Lagoa Santa, uma das mais importantes áreas arqueológicas da América do Sul. Nessa região situa-se o circuito das grutas: Maquiné, Lapinha e Rei do Mato.

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Roteiro de pesquisa Paleopaisagens. Fonte: Google Earth, 2012.

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Marcelo Albuquerque: Paleopaisagem. Aquarela, 40 x 51 cm, 2012.

O Parque Estadual do Sumidouro oferece uma caminhada por trilhas, passando pela mata exuberante do cerrado, pedras, pelos locais de escavação preservados de Peter Lund, pelas pinturas rupestres e pelas margens da lagoa. Os guias são muito atenciosos. Outro ponto interessante da trilha do Sumidouro é a visita a um dos locais onde Peter Lund realizou suas escavações. Os buracos permanecem no local, e deles saíram os fósseis e ossos de animais que contribuíram para as teorias do cientista dinamarquês.

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Parque Estadual do Sumidouro. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Trilha no Parque Estadual do Sumidouro. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Pinturas rupestres no Parque Estadual do Sumidouro. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Escavações de Peter Lund. Parque Estadual do Sumidouro. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

A famosa gruta da Lapinha é parada obrigatória. Foi erguido recentemente o museu Peter Lund, ao lado da gruta, de onde parte a visita guiada para dentro dela. Imperdível. O ingresso dá direito ao passeio pelo Parque Estadual do Sumidouro.

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Gruta da Lapinha, em Lagoa Santa. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Gruta da Lapinha, em Lagoa Santa. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Gruta da Lapinha, em Lagoa Santa. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Arco de Pedra da Gruta do Baú, no caminho entre Fidalgo e Pedro Leopoldo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

Segundo o texto da exposição sobre os sítios arqueológicos em Minas Gerais, no Espaço Tim UFMG do Conhecimento, na Praça da Liberdade, os conjuntos de pinturas rupestres mais densos encontram-se na região de Lagoa Santa, na Serra do Cipó, no vale do rio Peruaçu e Cochá e no Alto Jequitinhonha.

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Infográfico do Espaço Tim UFMG do Conhecimento, em Belo Horizonte. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

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Marcelo Albuquerque. Paleopaisagem. Aquarela, 55 x 75 cm, 2012.

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Gruta da Faustina, em Pedro Leopoldo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

As estradas de terra estão em boas condições e um carro de passeio pode perfeitamente ir sem problemas. A região mais problemática percorrida foi nas cercanias da Lagoa da Gordura, em Matozinhos. Deve-se estar atento às condições da estrada, muito erodida por causa das águas.

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Lagoa da Gordura, em Pedro Leopoldo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2012.

Também seleciono esta excelente entrevista do Dr. Pedro da Glória, especialista nos hábitos dos paleohabitantes de Lagoa Santa. Realizada nos EUA, sua tese de doutorado buscou entender a saúde e o estilo de vida dos homens pré-históricos através da análise de seus esqueletos. Confira abaixo:

Este outro vídeo, muito interessante, mostra a escavação realizada na Lapa do Santo, por pesquisadores da USP. Percebam a profundidade do buraco escavado. Durante as escavações, foi encontrado o registro artístico, um baixo relevo, mais antigo das Américas. Confira abaixo:

Referências bibliográficas:

PROUS, André. O patrimônio arqueológico da região de Matozinhos: conhecer para proteger. André Prous, Alenice Baeta, Ezio Rubbioli. Belo Horizonte: Ed. do autor, 2003. 132 : il.

Na internet:

Circuito das grutas. Disponível em: http://www.circuitodasgrutas.com.br/. Acesso em 22 ago. 2012.

O melhor de Lagoa Santa. disponível em: http://melhordelagoasanta.wordpress.com. Acesso em 30 set. 2012.

Peter Lund e as Grutas de Minas Gerais. Disponível em: http://rockartluzia.blogspot.com.br/. Acesso em 10 nov. 2012.

Prefeitura Municipal de Lagoa Santa. Disponível em: http://www.lagoasanta.mg.gov.br/. Acesso em 24 ago. 2012.

Prefeitura Municipal de Matozinhos. Disponível em: http://www.matozinhos.mg.gov.br/. Acesso em 23 ago. 2012.