Aquedutos e pontes

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Por Marcelo Albuquerque

Os aquedutos são construções emblemáticas e símbolo do poderio romano. Na sua construção eram utilizados o concreto (opus caementicium) e a alvenaria de tijolos e pedras, aliados à tecnologia dos arcos. Eles são, em essência, canais artificiais de condução de água para níveis mais baixos que as fontes naturais, aproveitando-se a gravidade. Porém, apesar de sua função essencialmente prática na condução vital da água, os aquedutos também são belos quando atravessam os grandes vales com suas imponentes arcadas, marcando a paisagem e deixando a indiscutível presença romana através dos tempos. Goethe comenta em sua passagem em 1789 por Terni a caminho de Roma:

“Subi no Spoleto e estive no aqueduto que é, ao mesmo tempo, a ponte que conduz de uma montanha a outra. Os dez arcos a vencer o vale erguem-se há séculos com seus tijolos, e a água segue sendo levada para toda a parte. Essa é, pois, a terceira obra da Antiguidade que vejo pessoalmente, e a grandiosidade é sempre a mesma. Sua arquitetura é uma segunda natureza, atuando em consonância com os interesses dos cidadãos – assim é com o anfiteatro, o templo e o aqueduto (GOETHE, Viagem à Itália, p. 142).”

Uma imagem contendo ao ar livre, trem, ponte, edifício

Descrição gerada automaticamente

Ponte delle Torri, Spoleto, Italia: construção de origem romana, porém modificada na Idade Média e restaurada nos períodos modernos. Fonte: Wikipedia (domínio público).

As fontes podiam captar água das nascentes ou estarem em represas, sendo recolhidas em pontos ligados a pequenos túneis. A água não poderia correr em ângulo muito íngreme, pois danificaria o canal ao longo do tempo devido ao atrito. Grande parte dos aquedutos seguiam perto da superfície, acompanhando os contornos do terreno. Se encontrava um monte, era escavado um túnel cortando o seu interior. Se atingisse um vale, uma ponte arcada seria construída, geralmente. Ao chegar nos arredores da cidade, a água enchia um grande tanque de distribuição chamado de castellum. A partir dali a água podia correr e se ramificar em outro castellum secundário. Estes se ramificaram novamente, muitas vezes em tubos e canais de alvenaria, fornecendo água sob pressão para fontes, casas particulares e banhos.

aquedutos romanos

Ilustração representando a condução de águas a partir da fonte até a cidade. Adaptado por Marcelo Albuquerque, 2017.

O Acqua Appia foi o primeiro aqueduto romano, construído em 312 a.C. por Ápio Cláudio, o mesmo censor responsável pela construção da Via Ápia. Fluía por 16,4 km, entrando em Roma pelo oriente e desembocando no Fórum Boário. O Acqua Claudia começou a ser construído por Calígula (37-41) e terminou no governo de Cláudio (41–54), seu sucessor. A construção foi do ano 38 a 52. Entre as fontes principais, estava o Subiaco, a 70 km de Roma.

Arcada e ruínas do Arco de Druso, parte do aqueduto Antoniniano, junto à Porta Latina, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Ninfeu de Alexandre, Piazza Vittorio Emanuelle II, Esquilino, Roma. É uma fonte monumental (ninfeu) e tanque de distribuição de água (castellum) do aqueduto da Porta Tiburtina. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Em Roma, certamente a melhor oportunidade para se conhecer seguramente os aquedutos da Antiguidade é visitar o Parque dos Aquedutos, localizado na região leste da cidade, perto da estação de metrô Cinecittà. Ele integra o parque regional da Via Appia, e seu nome deriva da presença dos aquedutos elevados  e subterrâneos, romanos e papais, que abasteciam a Roma antiga. São eles: Anio Vetus (subterrâneo), Claudio e Anio Novus (sobrepostos), Marcia, Tepula, Iulia e Felice (sobrepostas). O parque é usado como cenário para várias produções cinematográficas, como A Grande Beleza, La dolce vita , Mamma Roma e a série Roma da HBO, entre outras.

Aqueduto Claudio. Parque dos Aquedutos, Roma. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2019.

Aqueduto Claudio. Parque dos Aquedutos, Roma. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2019.

Porta Maior, ou Porta Maggiore, faz parte da antiga Muralha Aureliana, como veremos posteriormente, e possuía a função dupla de portão das muralhas quanto de aqueduto. Na sua época era conhecida como Porta Prenestina, e foi construída pelo imperador Cláudio em 52 d.C.  como seção decorativa para dois aquedutos, a Acqua Cláudia e o Ânio Novo, que passam pela Via Appia e pelo Parque dos Aquedutos. Era revestido integralmente de mármore travertino branco. O arco foi incorporado por Aureliano na Muralha 271 d.C. O atual nome de Porta Maggiore se dá em referência à basílica de Santa Maria Maggiore que se localiza em suas adjacências, na região do Esquilino. As inscrições elogiando os imperadores Cláudio, Vespasiano e Tito por suas benfeitorias estão presentes na parte superior.

Porta Maggiore, Roma. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2019.

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Serapeu, na Villa Adriana, Tivoli. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Aquedutos de alimentação das cascatas do Serapeu, na Villa Adriana, Tivoli. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

O Acqua Claudia oferece a oportunidade de apreciar em Roma ruínas dos aquedutos das épocas dos primeiros imperadores do século I. Aos pés do Palatino, entre os Arco de Constantino e o Circo Máximo, na Via di San Gregorio, contempla-se parte de suas estruturas que outrora foram colossais e marcavam a paisagem urbana da Roma antiga. No Monte Celio, nas adjacências da Basilica de Santo Stefano Rotondo, que veremos mais adiante, encontra-se o Arco de Dollabela e fragmentos do Acqua Claudia que compõe partes de não só do aqueduto em si como das muralhas. O Arco de Dolabella e Silano foi construído em de 10 d.C. a pedido dos cônsules P. Cornelius Dolabella e C. Junius Silanus. Ele abrange uma reconstrução de um dos portões das Muralhas Servianas, recebendo sua grande extensão do Acqua Claudia durante o império de Nero. O aqueduto também apoiava um ramo do Acqua Marcia.

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À direita, as ruínas do Acqua Claudia nas bases do Palatino. Foto: Marcelo Albuquerque, 2019.

Arco de Dolabella e pilar do Acqua Claudia no Monte Celio em Roma. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2019.

O aqueduto da Pont du Gard, na França, do século I a.C., foi construído provavelmente por Agripa. O nível inferior possui uma estrada e o nível superior um aqueduto, com 1,8 metros de altura e 1,2 m de largura, com gradiente de 0,4%. O nível inferior possui 7 arcos, o nível médio 11 arcos, e o nível superior 35 arcos.

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Pont du Gard, França. Fonte: Wikipédia (domínio público).

As pontes romanas, assim como os aquedutos, isentando-se as pontes de madeira, foram construídas com concreto (opus caementicium), alvenaria de tijolos e pedras, além de possuírem o arco como a estrutura fundamental. Muitos aquedutos também possuíam a função de pontes, como a Pont du Gard, na França, que permitia a passagem de veículos e ainda hoje possui a passagem de pedestres. As pontes e aquedutos romanos eram erguidos praticamente em todos os protetorados e territórios ocupados pelo império.

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Ponte Rotto, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Os arcos das pontes eram em sua maioria de volta perfeita, semicirculares, mas podiam ser de arco segmentado, menor que um semicírculo, permitindo vãos maiores e a diminuição do peso total da estrutura. A Ponte Fabricius, em Roma, de 62 a.C., é a ponte romana mais antiga ainda em pé, e possui inscrições em latim em homenagem ao seu construtor.

Ponte Fabricio, a ponte mais antiga de Roma, em condições originais, iniciada em 62 a.C., Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2019.

A Ponte Mílvia, apesar de se localizar fora do badalado centro histórico de Roma, não deixa de ser um importante local para se visitar na cidade para quem aprecia a história ocidental. Pode-se aproveitar o passeio visitando o museu de arte contemporânea Maxxi que fica bem próximo, projetado pela renomada arquiteta Zaha Hadid. Segundo a tradição, Constantino teve uma visão na noite anterior à batalha da Ponte Milvia, em 312 d.C., no qual foi dito a ele colocar o sinal divino de Cristo nos escudos de seus soldados.  Este sinal foi o estaurograma, ou cruz latina, com sua extremidade superior arredondada em “P”. Outra versão aponta que Constantino avistou nos céus uma cruz brilhante com a mensagem em grego “Neste sinal vencerás”. Na noite seguinte seria visitado em sonho por Cristo que lhe explicou que ele deveria usar aquele sinal na batalha. Daí advém o símbolo Qui-Rho (X-P) utilizado pela Igreja Católica até os dias de hoje.

Uma antiga ponte foi construída na Roma republicana pelo cônsul Gaius Claudius Nero em 206 a.C., após a vitória sobre os exércitos cartagineses na Batalha do Metauro. Em 109 a.C., o censor Marcus Aemilius Scaurus construiu uma nova ponte de pedra no mesmo local. Em 63 a.C., as cartas dos conspiradores da famosa conspiração catilina foram interceptadas na Ponte Mílvia, permitindo que Cícero as lesse para o Senado romano no dia seguinte. Em 312 d.C., Constantino I derrotou seu rival mais poderoso e principal obstáculo para obter o trono do império, Maxêncio, extinguindo a tetrarquia (será visto mais adiante), entre esta ponte e Saxa Rubra, na famosa Batalha da ponte de Milvia. Na Idade Média a ponte passou por sucessivas restaurações, como a do monge Acuzio. Em 1429, sob o Papa Martinho V, a ponte estava a ponte de entrar em colapso, cabendo ao arquiteto Francesco da Genazzano as obras de reparo. Nos séculos XVIII e XIX a ponte foi modificada por dois renomados arquitetos, Giuseppe Valadier e Domenico Pigiani. A ponte foi seriamente danificada em 1849 pelas tropas de Garibaldi, durante uma invasão francesa, e posteriormente reparada pelo papa Pio IX em 1850.

Ponte Milvia. Foto: Marcelo Albuquerque, 2019.

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Ponte de Santo Ângelo, 133 a 200 d.C., Roma. Em 1450 a ponte ruiu, devido ao grande trânsito de pessoas, sendo depois restaurada. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A Ponte Elio (Aelius), ou Ponte de Santo Ângelo, é uma antiga ponte romana que conecta a Piazza di Ponte S. Angelo aos distritos de Ponte e Borgo, próximo ao Campo de Marte, complementando o conjunto arquitetônico do castelo. Sua construção foi iniciada em 134 pelo imperador Adriano para alinhar e conectar o seu mausoléu. Foi construída com alvenaria de pedra de tufa, concreto e revestido de mármore travertino, possuindo três arcos acessados por rampas nas extremidades, apoiadas, por sua vez, por três arcos menores no lado esquerdo e dois do lado direito, mas que foram destruídas em 1893 para a construção dos diques, sendo substituídas por arcadas modernas. A partir do século XVI, após o papa Clemente VII, foram adicionadas estátuas de São Pedro, São Paulo, os quatro evangelistas e os patriarcas bíblicos Adão, Noé, Abraão e Moisés. Em 1669 o papa Clemente IX promoveu a construção de uma nova grade projetada por Bernini, com dez estátuas de anjos portando os instrumentos da Paixão, esculpidas por alunos de Bernini sob sua direção.

Ponte de Santo Ângelo, 133 a 200 d.C., Roma. Vista do mirante do Castelo de Santo Ângelo. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2019.
Ponte de Santo Ângelo, 133 a 200 d.C., Roma. Vista do mirante do Castelo de Santo Ângelo. Fotos: Marcelo Albuquerque, 2019.
Anjos da Ponte de Santo Ângelo, 133 a 200 d.C., Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2019.

Veja mais:

O arco e as abóbadas romanas

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