O que é Cor: fundamentos artísticos e estéticos nas artes plásticas ?

– É um repertório de habilidades sobre a cor a serem refletidas ao longo dos estudos.
– Presença na contemporaneidade das teorias clássicas.
– Metodologia para disciplinas de cor nas artes plásticas, conservação-restauração, design e comunicação.
– Quatro pilares de estudo: filosofia e história da arte, materiais e aspectos físico-químicos da cor, percepção/psicologia e pedagogia da cor.


Resumo

Este livro tem como principal objetivo pesquisar o estudo da cor na arte, do ponto de vista estético e histórico. Busca apresentar os conceitos fundamentais, as escolas consagradas e os artistas de referência, constituindo os pilares do método de estudo da cor chamado Cor: fundamentos artísticos e estéticos nas artes plásticas. O corpus teórico visa esclarecer a importância do conhecimento da cor para o artista plástico (ou visual), e para as demais áreas de design, apresentando as particularidades, complexidades e personagens do vasto campo da cor historicamente. A leitura aborda diversos aspectos das eras históricas artísticas, desde as teorias da cor na Grécia antiga, Roma, Idade Média, Renascimento, Barroco, Neoclassicismo, Romantismo e arte moderna. Por fim, este livro pretende pontuar eixos coloristas na arte contemporânea. Porém, é possível detectar, na atualidade, os reflexos do pensamento da cor reverberados por séculos de história.

Palavras-chave: Cor, Estética, História da Arte, Pintura, Pedagogia da cor.

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Introdução

 

Este livro tem por objetivo pesquisar, analisar e discutir criticamente um ramo de estudo ou categoria das artes plásticas: o estudo da cor na pintura. Mais especificamente, essa pesquisa investiga a presença dos questionamentos clássicos, estéticos e históricos na contemporaneidade (segunda metade do séc. XX em diante), acompanhada de uma análise dos principais referenciais teóricos.  Optei por uma forma didática e de fácil compreensão ao leitor, pois o objetivo da pesquisa é a transmissão desses conhecimentos aos estudantes de arte ou disciplinas afins. Para que o tema se esclareça ao longo deste livro, considerei de extrema importância analisar com profundidade a história da cor na arte, de forma a relacioná-la ao período contemporâneo. Como será visto mais adiante, os grandes personagens da cor, na arte da contemporaneidade, apresentados aqui, se referem, com clareza e lucidez, a estes fundamentos teóricos históricos. Se por um lado percebemos nos artistas do modernismo um sentimento de tentativa de ruptura com as tradições, o que não exclui do modernismo a presença de longas tradições artísticas, percebemos nos artistas contemporâneos, ao mesmo tempo, a continuidade de projetos modernistas bem como a revitalização de valores clássicos.

O termo “paradigma”, de acordo com o historiador da filosofia Giovanni Reale, foi estruturado por Thomas S. Kuhn como indicação de conquistas cientificas universalmente reconhecidas, que fornecem modelos e coordenadas de problemas e soluções aceitáveis aos que praticam certo campo de pesquisa em determinado período. A passagem de paradigmas estaria bem exemplificada no declínio da astronomia ptolomaica para a ascensão da astronomia copernicana. Na arte, entretanto, pode-se perceber paradigmas para a cor, mas como veremos, princípios da Antiguidade continuam valendo e proporcionando material intelectual para os artistas, digamos, paradigmáticos. Segundo Reale:

A aceitação de um novo paradigma não se deve ao fato de que ele resolve os problemas que o velho paradigma não consegue resolver, e sim a promessas que dizem respeito a outros campos (REALE; ANTISERI, vol. 7, 2006, p. 164).

Reale aponta em Larry Laudan, cuja obra mais importante é O progresso científico (1977), que as teorias não vivem singularmente, razão por que devemos considerar um espectro de teorias individuais. A teoria da evolução não se refere a uma teoria isolada, mas a um conjunto de toda uma família de doutrinas historicamente e conceitualmente ligadas entre si. Laudan propõe a teoria das tradições de pesquisa para a compreensão do progresso científico. O darwinismo, a teoria dos quanta e a teoria eletromagnética da luz são exemplos de tradições de pesquisa: empirismo e nominalismo na filosofia, voluntarismo e necessitarismo na teologia, behaviorismo e intuicionismo na ética, marxismo e capitalismo em economia, etc.[1]

Considerando a discussão da pintura como o grande paradigma histórico das artes plásticas, este estudo da cor pode se aplicar, em maior ou menor grau, aos outros campos das artes plásticas. Em termos gerais, não se trata de definir o que é a cor nem criar uma teoria da cor. Teoria da cor é um termo incorreto de se usar, quando estudamos a cor como uma disciplina de uma academia ou escola de arte. Existem teorias das cores. Na arte, uma teoria cromática não invalida outra necessariamente, já que cada momento histórico utiliza os princípios referentes à cor de acordo com o pensamento de sua época, costumes e tecnologia. E, já que a cor se faz presente em praticamente toda a história da arte, detenho-me aqui a comentar os momentos cruciais onde a cor foi objeto de discussão preferencialmente.

O pintor, hoje, se encontra hibridizado: realiza trabalhos em diversas linguagens, sejam elas tradicionais ou contemporâneas. Atua nas artes gráficas, utiliza tecnologia de ponta, mantém atividades de artes aplicadas, explora diversos suportes e mídias. A cor, sendo assim, se comporta de várias formas. Entretanto, diversas questões clássicas, que remetem às origens do pensamento ocidental, se fazem extremamente atuais, como as de princípio estético. Porém, percebo uma lacuna na formação de um artista/estudante de pintura. Grande parte das publicações situa a cor por aspectos demasiados técnicos e cientificistas, voltadas a uma visão que contempla mais o design, com um breve panorama histórico e estético da arte. Considero uma negligência excluir a cultura clássica (estética e histórica) dos estudos cromáticos, como prova boa parte da literatura que se destina ao tema da cor na arte. Eventualmente, com tristeza, me deparo com o desinteresse, desinformação e rancor de muitas pessoas em relação a aspectos essenciais do pensamento ocidental. Como, por exemplo, o desdém que nos é legado pelo nosso ensino em relação à Idade Média. Por razões ideológicas e históricas, ela é vista como uma era tenebrosa e de atraso, mas que é, pelo contrário, uma época de profundos conhecimentos. É o que constato nesse estudo da cor: a presença fundamental de tradições junto às inovações, de naturezas diversas de pensamento, nas manifestações contemporâneas da cor. Argan reconhece que o método sociológico aplica à arte procedimentos de análise semelhantes ao do estudo da economia. Muitos aspectos anticonformistas e rebeldes dos artistas são interpretados como aspectos da dialética interna do sistema, que o próprio sistema tem interesse em tolerar e encorajar[2].

A pesquisa corre paralela ao desenvolvimento histórico da cor como disciplina nas artes plásticas, mas em nível avançado, nas academias de arte e escolas contemporâneas. Isto se justifica, pois boa parte dos artistas e teóricos da cor desenvolveu algum tipo de trabalho e pesquisa em academias e universidades, como Delacroix, Kandinsky, Klee, Itten, Albers, David Batchelor, entre outros. Particularmente, sou um árduo defensor de uma disciplina autônoma de cor em um curso de artes plásticas, com ampla carga horária. O estudo da cor em cursos superiores de arte não deve se resumir a uma breve introdução sobre as questões científicas da cor, misturas de cores e exercícios aplicados.  Como consequência dessa deficiência, percebo na internet, o meio de pesquisa mais utilizado no presente momento, como essas informações superficiais se difundem em infindáveis websites, blogs, comunidades e fóruns de discussão sobre teorias da cor que se propõe abrangentes, representando um obstáculo à pesquisa e ao desenvolvimento e multiplicação do conhecimento de forma coerente.  Portanto, vejo aqui a oportunidade de refletir sobre a formação de um artista plástico pintor, no que se refere ao estudo específico da cor, de forma a não apenas valorizá-la como uma disciplina em si, mas também conscientizar o leitor da necessidade da investigação filosófica e histórica. O universo da cor, para o estudante de pintura, não pode se resumir a cientificismos rasos e noções técnicas superficiais.

Para que haja uma melhor compreensão da cor na pintura, optei pela distinção de eixos onde determinados temas, artistas e movimentos podem ser agrupados, como a cor nas tradições estéticas, científicas, metafísicas e poéticas. De fato, esses eixos se cruzam constantemente, e não pretendo, de forma alguma, desenvolver um método que separe a cor na arte em categorias. Pelo contrário, esses eixos devem ser cruzados obrigatoriamente. Trata-se de uma útil forma de organização que possibilita a visualização dos diversos contextos onde a cor se insere. Como exemplo, percebe-se no Neoimpressionismo o predomínio do eixo cientificista sem, entretanto, deixarmos de ter toda uma poética das cores que extrapola os domínios da ciência. Na contemporaneidade, diversas manifestações da cor evidenciam as diversas tradições. Deixarei para a Conclusão a definição do termo Laboratório de cor, que visa justamente definir essa proposta. Portanto, nas minhas disciplinas de cor, pratico uma carga horária equilibrada entre teoria e prática, revisitando a crítica e a história da arte pelo ponto de vista cromático, ao mesmo tempo em que se executam os exercícios práticos.

O objetivo geral é discutir as manifestações da cor na pintura na contemporaneidade, de forma a traçar paralelos com os fundamentos da estética e da cor na história da arte. Esses fundamentos configuram o primeiro pilar do meu método de estudo da cor, que situa o estudo objetivo e subjetivo das cores, aceitando princípios científicos, artísticos, perceptivos e pedagógicos.

Foi observado o contexto da cor nas exposições, mostras e bienais contemporâneas. Dentre as exposições, destaco a exposição Color Chart – Reinventing Color from 1950 to Today[3], no MoMA, em 2008, que teve como ponto de partida as cartelas de cores comerciais, e apontam a cor na produção em massa e padronizada. A cor se manifesta nas bienais de Veneza, na Documenta de Kassel e no acervo de Inhotim no Brasil, e parte dessas obras são apresentadas aqui.

A metodologia proposta para a pesquisa que resulta neste livro privilegia a leitura de autores consagrados da história da arte e do pensamento da arte, levando-se em consideração a literatura existente no mercado brasileiro e nos websites oficiais e confiáveis de instituições, museus e artistas. Foi necessário investigar o surgimento histórico da discussão e autonomia da cor, observando a evolução das academias e escolas de arte no mundo ocidental. Para tanto, foi fundamental a leitura de Academias de arte, de Sir Nikolaus Pevsner, que apresenta um rico panorama sobre as academias de arte desde o Renascimento à primeira metade do século XX. Os excelentes textos sobre algumas escolas de referência, como a Bauhaus, detalham as disciplinas onde a cor teve realmente um papel importante no estudo e formação de profissionais e artistas. Sendo assim, importantes autores originais e historiadores foram convidados para esta pesquisa.

As diversas publicações sobre cor nas artes plásticas, de forma geral, pautam o roteiro de pesquisa. Os mais importantes são Color and Culture[4] (1993) e A cor na arte (2012), de John Gage, obras que analisam a cor na arte na história ocidental; Jacqueline Lichtenstein, com A cor eloquente (1994) e os volumes de A Pintura: textos essenciais (2004); Michel Pastoureau, historiador das cores e medievalista, com o Dicionário das cores do nosso tempo (1997) e Preto: história de uma cor (2011); Cromofobia, de David Batchelor (2007), artista britânico e estudioso da cor, que auxilia na compressão de aspectos contemporâneos da cor nas artes, endossando o viés estético como estudo primordial da cor na arte contemporânea. Dessa forma, como disse anteriormente, desejo afastar a pesquisa do caráter científico e técnico, como é visto em grande parte das publicações sobre cor, para aproximá-la das questões estéticas relevantes ao seu entendimento como objeto de estudo artístico. A filosofia se faz presente desde A República de Platão (1981), a Arte poética de Aristóteles (2007) e Da sensação e do sensível (1994), A doutrina das cores de Goethe (1993) e Anotações sobre as cores de Wittgeinstein (2009), além do suporte fundamental da História da Filosofia de Giovanni Reale. Optei por definições enciclopédicas dos movimentos artísticos, como Estilos, escolas e movimentos, de Amy Dempsey (2003), Conceitos fundamentais da arte moderna, de Niklos Stangos (1994) e Arte moderna, de Giulio Carlo Argan (1992). A crítica de arte e a história da história da arte são representadas na Arte e crítica de arte, de Argan (1988); Germain Bazin, com a História da história da arte (1989). Metodologias clássicas de estudo da cor serão apresentadas brevemente, como as de Wassily Kandinsky, em Curso da Bauhaus (2003); Johannes Itten, com Art of Color e Elements of color (1970) e Josef Albers, com a Interação da cor (2009). A referência brasileira está no livro mais difundido e famoso no meio acadêmico nacional, Da cor à cor inexistente, de Israel Pedrosa (2010), que valoriza as questões científicas e perceptivas das cores. Outras publicações brasileiras são A cor como informação, de Luciano Guimarães (2000), e A cor no processo criativo, de Lilian Barros (2006). Outros livros e manuais são importantes, como O guia completo da cor, de Tom Fraser e Alam Banks (2007), principalmente pelas descrições técnicas, tecnológicas e metodológicas da cor, atendendo a um nicho do mercado, que engloba as artes plásticas, design e arquitetura.

 

[1] REALE; ANTISERI, vol. 7, 2006, p. 170.

[2] ARGAN, Arte e crítica de arte, 1988, p. 155.

[3] Disponível em http://www.moma.org/interactives/exhibitions/2008/colorchart/flashsite/. Acesso em 23 set. 2012.

[4] Jacqueline Lichtenstein, no volume 9 de A pintura: textos essenciais. O desenho e a cor, faz referência a esta obra de John Gage como ”essa obra volumosa abrange toda a história da cor, desde a Antiguidade até a abstração, e contém uma imensa bibliografia” (LICHTENSTEIN, O Desenho e a cor, 2006, p. 74).