Domus italica

Por Marcelo Albuquerque

As casas romanas eram mais que um mero abrigo para o corpo físico; era o ponto de encontro da família, o centro das cerimonias religiosas mais intimas. A domus italica possui origem etrusca, e era o tipo de habitação mais comum entre a nobreza e os endinheirados romanos, construídas com nobres e resistentes materiais. Possuem elementos etruscos, latinos e gregos. Para introduzir as características de uma casa romana, primeiramente é necessário apontar algumas tradições romanas que determinarão as funções e divisões de uma casa romana, em especial a domus itálica. A família romana era presidida pelo paterfamilias[1] e reunida no lar, ao lado da figura feminina da materfamilias, detentora principalmente das obrigações domésticas, sociais e educacionais dos filhos. O termo familia podia englobar tanto o conjunto do patrimônio quanto ao conjunto total de membros e escravos de uma família, abrigados sobre o poder de um paterfamilias. Dentro lar ficavam os altares chamados lararium, com imagens dos deuses domésticos e dos cultos privados. Segundo Giordane: “Para todos nós, o lar é um santuário tão sagrado que arrancar dele um homem é fazer um ultraje à lei do céu” (GIORDANE, 2012, p. 186). A educação começava no lar, e desde jovem o romano nutria a veneração pelos antepassados, como um prolongamento de sua família, representadas pelas imagines expostas no átrio da residência. A religião fez com que a família formasse um corpo nessa vida e na outra; mais que uma associação natural, uma associação religiosa. A Gens Julia, por exemplo, prestava culto a Vênus, fundadora da Gens[2], pois se consideravam herdeiros da deusa e de Enéias, avô de Julo e fundador da família que pertenciam Romulo e Remo. O lararium, ou sacrarium, era a capela doméstica, em geral no átrio, com imagens das divindades familiares e local da chama sagrada[3]. Cabia ao paterfamilias conservar essa chama sagrada e agradar aos deuses com oferendas, como frutas, incensos e vinhos. Os romanos tinham um temor de que, se não praticassem os rituais corretos, os mortos retornariam e se tornavam errantes, prejudicando os vivos que os negligenciaram nas relações e nos negócios. Os deuses lares eram os espíritos dos mortos, que podiam ser maléficos, que erravam pela terra fazendo aparições e pronunciando desgraças, sendo apaziguados nas festas chamadas Lemurias, quando eram solenemente apaziguados. As orações continham pedidos de caráter material, como saúde, prosperidade e fecundidade, havendo também o votum, uma forma particular de prece, como uma troca de favores. Após a prece, ocorriam os sacrifícios de animais e vegetais, que podiam ser ou não queimadas. Estes não podiam ter defeitos, deveriam ser os melhores.

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Pompeia: lararium da Casa do Poeta Trágico. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

A casa urbana padrão em Pompeia era a domus helenizada, que agrega elementos romanos e gregos, como o peristilo nos interiores, podendo formar grandes e vistosos jardins internos, como vemos na Casa do Fauno (ver Casa do Fauno). Em Pompeia, as fortes estruturas sobreviveram aos séculos, ao contrário da maioria das residências romanas de classes inferiores, que se perderam no tempo. As características e formas de construção da domus italica foram descritas detalhadamente por Vitrúvio, no Tratado de Arquitetura, no Livro 6. A parte anterior das residências possuem nomes latinos, como vestíbulo, átrio, fauces, alae, tablinum e cubiculum (cella). As partes posteriores recebem nomes gregos, como peristilo, exedra e triclínio. Vitrúvio ainda descreve quais são as áreas privadas e públicas dentro de uma típica casa romana, destinadas às pessoas íntimas e às pessoas estranhas. As domus mais bem preservadas estão nos sítios arqueológicos de Pompeia e Herculano, na Campânia, aos pés do Monte Vesúvio. Parte considerável dessas residências continua sendo escavada em Pompeia. Nelas ainda são encontradas pinturas, mobiliários e objetos que desvendam os detalhes do cotidiano romano. Pompeia era uma cidade de ricos moradores e ostentava luxuosas residências com os mais finos ornamentos que um romano poderia comprar. As domus eram residências bem reservadas, e não possuíam janelas para as ruas, tanto por causa da segurança quanto por privacidade. A ventilação da casa se dava principalmente pelos átrios e peristilos.

O centro da casa era o atrium, o espaço interior em torno do qual se articulam os compartimentos da residência, acessado através das fauces (entrada apertada prolongada entre a porta e o átrio) e do vestíbulo que conectavam o exterior com o interior da casa. Vitrúvio descreve cinco tipos de tipologias de átrios: toscano, coríntio, tetrastilo, displuviado e testudinado[4]. Em geral, no átrio localizam-se o impluvium e o compluvium, destinados ao aproveitamento das águas das chuvas sem criar transtornos para as áreas internas. Quatro águas convergentes para o centro. O compluvium garantia uma boa Iluminação e ventilação para os interiores. O impluvium funciona como um tanque de água, podendo ser bastante ornamentado com mosaicos, pedras, plantas e fontes, e costumam abrigar no subsolo logo abaixo um outro reservatório de água conectado a uma rede de esgoto. O átrio displuviado possuía a inclinação do telhado de forma a direcionar as águas para o exterior, e não para o interior da domus. Prestam-se mais para as residências de inverno, segundo Vitrúvio. O átrio testudinado era coberto com uma abóbada (testudo).

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Pompeia: Átrio da domus de Casca Longus. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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Pompeia: lararium da Casa do Poeta Trágico. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

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