Etruscos – Conceitos gerais

Por Marcelo Albuquerque

Por volta de 800 a 600 a.C., quando a Grécia emergia no período arcaico e viria a se expandir como a Magna Grécia pelo Mediterrâneo, a península itálica possuía diferentes níveis de civilização; algumas ainda na Idade do Bronze, e outras na Idade do Ferro, como o mundo grego, mais evoluído tecnologicamente. Entre os povos que habitavam a Itália pré-ariana estavam os Lígures e os Sículos. A Cultura Villanoviana, de origem nórdica e obscura, introduz o ferro por volta de 800 a.C., conquistando a Etrúria e a Ùmbria. Nesse período, desenvolvem-se as línguas itálicas, como o latim, o osco e o úmbrio. Semelhante aos períodos gregos, os períodos históricos etruscos são divididos em villanoviano, orientalizante, arcaico, clássico e helenístico.

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Mapa da Etrúria.  Fonte: Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Etr%C3%BAria. Acesso em: 12 set. 2016.

Etrusco é um nome latino derivado de Etrusci ou Tusci, de onde se origina a palavra Toscana. Já os gregos os denominaram Tyrrhenoi, originado do Mar Tirreno, na costa ocidental da Itália, enquanto a costa oriental é banhada pelo Mar Adriático, assim chamado por causa do porto de Adria, uma das cidades etruscas. Estabeleceram-se entre 1.200 e 700 a.C., ocupando os territórios ao norte da Itália, na região entre os rios Arno e Tibre, atual Toscana, estendido para partes da Úmbria e Lácio. Heródoto, o famoso historiador grego, comenta as prováveis origens orientalistas desse povo, vindos do mar, da Lídia (atual Turquia). Os gregos e romanos deixaram poucas informações sobre os etruscos. Os romanos relatam que os etruscos eram demasiadamente supersticiosos, cujas crenças foram transmitidas aos próprios. O alfabeto etrusco ainda não foi decifrado, sendo parecido e originado do grego e do fenício. Foram aliados dos cartagineses e rivais comerciais das colônias gregas na Itália, como Nápoles e Cuma. Com os gregos, desenvolveram um rico comércio, como provam as cerâmicas e obras artísticas de origem e influência helênica em solo etrusco, ao mesmo tempo que ambos praticavam a pirataria entre si. A Etrúria era governada por uma liga de cidades-estados, como Arezzo, Cápua, Chiusi, Cortona, Fescência, Orvieto, Perugia, Tarquínia, Todi, Veios, Volterra e Vulci.

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Vitrine com cerâmicas etruscas. Museu Nacional Etrusco de Villa Giulia. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Os etruscos eram hábeis metalúrgicos e possuíam vastas jazidas de ferro, cobre e estanho, como as jazidas de ferro da ilha de Elba.  Usavam armamentos de ferro, e possivelmente aprenderam as técnicas metalúrgicas com a obscura cultura Villanoviana. As ferramentas de metais desenvolveram a agricultura, incrementando o uso do arado, além da introdução de ferramentas domésticas e de armamentos bélicos. O calendário broncoscópico etrusco era dividido em 12 meses com 29 dias, aproximadamente.

A posição social das mulheres etruscas ainda permanece um mistério, mas acredita-se que gozavam de posição social superior às mulheres gregas e latinas, o que causava severas críticas em relação à promiscuidade sexual por parte dos etruscos. Diziam os gregos que os etruscos conheciam suas mães, mas desconheciam seus pais. O historiador grego Teopompo atribuiu aos etruscos excessos exaltados em meio a todos os prazeres imagináveis, incluindo atos sexuais em público e orgias. Poderiam ser boatos e formas preconceituosas do ponto de vista grego, já que as mulheres gregas não desempenhavam papéis junto às todas as atividades dos homens, inclusive nos jogos esportivos. A arte tumular evidencia a posição das mulheres próxima à dos homens, já que suas figuras as colocam em pé de igualdade na representação artística, fato incomum no período entre as civilizações vizinhas. As mulheres etruscas tinham seu próprio nome, enquanto as romanas herdavam o nome do pai. No Museu Nacional de Villa Giulia, em Roma, o sarcófago etrusco de Cerveteri, c. 520 a.C., é um dos mais belos exemplos da arte tumular e evidencia uma participação efetiva das mulheres nos banquetes e na vida pública etrusca.

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SAMSUNG CAMERA PICTURESSarcófago etrusco de Cerveteri, 520 a.C., Museu Nacional de Villa Giulia, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

 

As superstições e auspícios eram parte integrante e fundamental do cotidiano etrusco.  O Fígado de Placência, artefato encontrado em 1877, na província de Placência, Itália, data do século II-III a.C. É uma peça de bronze, em tamanho natural, de um fígado de carneiro dividido em partes com escrita etrusca. Os escritos se referem a deidades etruscas e serviam como ferramenta para os sacerdotes praticarem auspícios e adivinhações. Tratava-se de uma arte divinatória que consistia no exame das vísceras (sobretudo fígado e intestino) de animais sacrificados para observar sinais divinos e normas sociais. Este costume foi herdado pelos romanos, que os levavam com muita seriedade.

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Fígado de Placência. Fonte: Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%ADgado_de_Plac%C3%AAncia. Acesso em: 10 jan. 2017.

Tages é o garoto semideus nascido da terra, encontrado por um lavrador, que ensinou aos etruscos a aruspicina, isto é, a arte dos sacerdotes arúspices. Seu aspecto era de criança, mas sua sabedoria a de um velho profete ancião. Quando uma multidão estava à sua volta, Tages explicou a todos a arte da profecia.

Figuras de crianças (Tages). Museu Nacional de Villa Giulia, Roma. Foto: Marcelo Albuquerque, 2015.

Declínio e legado

A decadência dos etruscos ocorre a partir do século V a.C., devido aos ataques romanos, gregos e celtas. Por fim, os romanos, fagocitam os etruscos por completo. Entre os legados dos etruscos aos romanos e a outros povos, encontram-se:

  • Política: transmissão de instituições à Roma, como a coroa de ouro, a sella curulis (magistratura), o medalhão de ouro chamado aurea bulla, os fasci dos litores, o manto vermelho dos imperadores, o anel de ouro dos cavaleiros, as cerimônias do triunfo romano, a procissão que conduzia solenemente a quadriga com o general vencedor ao capitólio.
  • Militar: Roma conservou muitas instituições etruscas: organização em centúrias para fins militares, jogos gladiatórios, triunfos cívicos e leitura de augúrios (vísceras de animais para prever o futuro).
  • Metais: técnicas de ourivesaria e fundição transmitidos aos gauleses.
  • Agricultura: canais, técnicas agrícolas de dividir o solo, introdução do vinho na atual França.
  • Artes e arquitetura: retratos mortuários dos ancestrais, templos, residências, arcos, abóbadas, circos e espetáculos teatrais (Tarquínio Prisco construiu o primeiro Circo Máximo).
  • Língua: parte do vocabulário em latim e nomes próprios. Ensinaram os romanos a ler e escrever, além de desenvolverem os números romanos.